domingo, 4 de abril de 2010

Para salvar o que se havia perdido

Quando algumas pessoas reclamam que a pregação do Evangelho se preocupa muito com os bêbados, drogados ou presidiários, costumo responder que Cristo veio “salvar o que se havia perdido” (Mat 18.11).

Na realidade, é uma resposta-padrão.

Como cidadãos imersos em uma sociedade secular, ainda não compreendemos integralmente o que é “ir” em busca do perdido. Nosso foco ainda é a edificação da imagem de um grupo vistoso na sociedade para que esta, vendo o bom exemplo, venha a seguir nossos passos.

Ir em busca dos perdidos, descer aos presídios e becos, é algo que muitas lideranças da Igreja estão plenamente dispostas a ir, mas desde que sem sujar as mãos...

Em nosso mundo, o que (ou quem) é o perdido?

Buscando uma resposta para essa questão, me lembrei do testemunho de Luiz Carlos Clay, que esteve em minha cidade há uns 3 anos, e sabe muito bem o que estar perdido.

Para quem não conhece, Clay foi um dos grandes nomes da Jovem Guarda, que fez um grande sucesso no final dos anos 60 e início dos anos 70.

Porém, mais que o declínio da Jovem Guarda, o que afundou sua carreira foi o alcoolismo, que minou toda a sua vida social, retirou a família de seu contato e finalmente o colocou várias vezes no “fundo do poço”.

Sabem a música “Garçom” do Reginaldo Rossi? O bêbado era ele...

Na verdade destruí tudo; joguei tudo fora; perdi o dinheiro; perdi o respeito de todo o mundo; perdi o rumo...”

Então, um dia, quando o vício do álcool lhe fazia tudo parecer sem esperança, Luiz Carlos Clay teve seu primeiro contato com o “ópio”.

O ópio que me refiro aqui é o “ópio do povo”.

Como filho de pai comunista – recebera seu nome como homenagem ao secretário-geral do PCB – Clay aprendeu em casa que Deus era uma ilusão e que TUDO é possível pela vontade do próprio homem. Quando quisesse, era só decidir largar a bebida e restaurar tudo novamente: família, carreira, dignidade...

O problema é que Clay nunca decidia parar de beber.

Que força é essa superior ao homem que o fazia rodopiar em torno de si mesmo?

Há uma força superior ao potencial humano, superior à bebida e superior até mesmo à nossa pretensão de elevar diante do mundo Igreja impoluta, moderada, bem sustentada doutrinariamente e moralmente estável.

Dentro de uma ordem brutalmente secularista, o mundo espera que a Igreja cumpra ainda mais a sua função de recolher os “restos” da sociedade a fim de torná-la mais homogênea e não que vá se intrometer chamando a torto e a direito as pessoas de perdidas ou que precisam de uma salvação que não está ao seu alcance.

É a tese de uma Igreja “terapêutica”, que é apenas tolerada enquanto cumpre essa função que o século lhe designa – mas que tem que ser afastada quando tenta interferir na vida de pessoas cujo potencial humano lhe pareça mais bem sucedido do que os bêbados das ruas ou os drogados e meliantes dos becos.

Diante de críticas cada vez mais exasperadas, a Igreja costuma se recolher na pequenez de teologias minimalistas, na certeza (que não deveríamos ter) de que a justiça ou a salvação são previamente espelhadas em ações de mérito, que são (sem qualquer coincidência) exatamente aquelas que o mundo espera que a Igreja cumpra. E nada além disso...

Corremos atrás dos Cornélios, enquanto fugimos das Madalenas.

E os perdidos?

Os perdidos estão aí, profundamente confiantes em seu potencial humano inesgotável.

Claro que não me refiro aos bêbados ou drogados – estes estão mais próximos de reconhecerem seus verdadeiros limites – mas aos perdidos que a sociedade toma por exemplares, confiantes na eternidade da sua beleza física, na segurança da sua fortuna, ou na sabedoria de sua formação intelectual.

Da mesma forma que encontrarmos os bêbados de manhã, dormindo na calçada (porque estão tranquilos – entendem perfeitamente que, quando e se quiserem, saem do vício que os derruba na rua e voltam à vida sadia), vemos os não-perdidos embriagados no saber e nas conquistas espetaculares da humanidade presente subindo nos púlpitos, escrevendo livros ou enviando mensagens edificantes em seus blogues “livres” da alienação religiosa.

Todos dormem indefinidamente.

Além do mais, se cutucarmos esses bêbados, soltam alguns palavrões (geralmente por e-mail) e reclamam de por quê um “alienado” qualquer vem interromper seu sono. Ou até (os mais enfiados no vício) pedem dinheiro para permanecerem bêbados.

Sim, quem coloca sua fé no potencial humano caminha irremediavelmente para um fim que não é nada agradável. Diante de Deus, o mais culto e bem sucedido dos homens é como um tolo, que não sabe para onde vai (Prov 10.21).

Mas, se não fosse por Cristo, todos seríamos os perdidos.

Na parábola do Filho Pródigo (Luc 15. 11-32), o pai festeja a volta do filho que se perdera e gastara toda a fortuna da família. Não importa o prejuízo que causou, a vergonha na família ou mesmo a sensação de injustiça com outros irmãos. Há muita alegria quando aquele que se havia perdido reencontra o caminho com Deus.

Há parábolas de Jesus que estão se repetindo hoje em dia, e isso vem fortalecer a nossa certeza de que Deus está oferecendo uma nova chance a todos aqueles que, achando-se capazes de tudo, caíram em vícios mais fortes do que eles – bem como aos outros, que acham que não tem vício nenhum.

A propósito, o que aconteceu com Clay?

Quando Clay perguntou a si mesmo que força é essa que era maior que ele, foi buscar amparo na presença do pai que, apesar de filosoficamente materialista, sempre foi um homem íntegro e dedicado à família. Trazia as marcas físicas da tortura política e seus filhos jamais o tinham visto bêbado. Só que agora, “curado” do ateísmo, o estava esperando com a uma Bíblia na mão.

Luiz Carlos Clay ainda brigou com Deus mais algum tempo. Mas quando Deus tem um propósito na vida de alguém, os anos se passam até que o chamado vem quando a resposta está pronta para ser “sim”.

Deus restaurou a minha vida. Quer saber o que aconteceu comigo? Eu nunca mais bebi!

Se a fé é um vício, como pode vencer outro vício?

Vence, porque dos becos da cidade ou dos presídios, as mãos podem voltar sujas, mas as almas voltam limpas. Os perdidos que resgatamos são apenas pessoas que acabarem de experimentar o amargo da existência e por isso já conhecem o que teremos ainda duras provas para poder conhecer, que é o ponto em que nossa força de vontade individual bate em um absurdo incontrolável e nos afunda em contradições.

Para todos, é apenas uma questão de tempo.

Mas algo muito mais forte nos espera, quando nós mesmos nos reconhecermos como perdidos e sentirmos o peso da humilhação de nossos próprios fracassos e falta de sabedoria. Para sermos despertados desse sono, basta que alguém nos bata à porta.

“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrarei; batei, e abrir-se-vos-á” (Mat 7.7)

Um comentário:

Sarah Rejane disse...

Parabéns!
Blog postado com muita sabedoria.
Que Deus o conserve assim. Um instrumento de divulgação de realidades que nem todos tem acesso.