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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2011: um balanço da Guerra do Natal

Na última década, o período das festividades natalinas tornou-se, nos Estados Unidos, um tempo de batalhas jurídicas e provocações mútuas entre, de um lado, organizações que procuram reter ou reviver as motivações cristãs do Natal, e, de outro, encrenqueiros ateístas que entendem que a comemoração pública do Natal (como presépios ou encenações montados com dinheiro público) viola a cláusula de estabelecimento da Primeira Emenda da constituição americana.[i]

Desde pelo menos a década de 50, o Natal transformou-se em uma data comemorativa neutra, desprovida de intenções religiosas mais explícitas e coerente com os princípios politicamente corretos de diversidade cultural[ii]. Um dia para distribuir presentes reunir a família para uma refeição substancial e, sobrando tempo, realizar algum ato imprevisível de generosidade inspirado em contos de Charles Dickens.
Tudo isso é permitido a todos, desde que o Natal não seja chamado pelo seu próprio nome – Christmas – que poderia soar muito invasivo e impróprio para os ouvidos bem mais sensíveis de cidadãos judeus ou os agnósticos, por exemplo – os primeiros, porque já tem a sua própria festa (Chanukah), que coincide com esta época; e os segundos porque, mesmo não dispensando o feriado e adorando a prática de dar e receber presentes, detestam ser lembrados que o motivo desta comemoração provém de uma data oriunda do passado mítico.
Por este motivo, muitas empresas e organizações estatais instam com seus funcionários para que jamais saúdem seus clientes com um Merry Christmas (porque seria ofensivo demais a quem não compartilha a fé cristã), e sim que utilizem os genéricos Happy Holydays ou Seasons Greetings (que equivalem ao nosso “Boas Festas”), até mesmo diante de pessoas que não estejam pretendendo comemorar festa alguma... – será que pessoas que não trabalham ficariam ofendidas com a parada do Dia do Trabalho?
Em contraposição, muitas entidades cristãs organizam, com relativo sucesso, boicotes contra essas empresas que proíbem o Natal para seus funcionários e clientes.
No último ano (2011), a “guerra do Natal” tomou alguns aspectos irônicos e em outras situações beirou o ridículo.
Tudo parece ter começado quando o governador do Wisconsin chamou a árvore natalina de Christmas Tree (e não Holiday Tree, como exige a correção política) e manteve a ousadia de montar um presépio no Capitólio do estado, o que provocou a indignação da Freedom from Religion Foundation, uma das mais renhidas organizações secularistas dos Estados Unidos.
A FFRF (sediada em Madison, Wisconsin) não conseguiu seu intento (remover o presépio) no próprio estado[iii], mas partiu para o ataque – junto com outras organizações – em outras partes do país, em uma campanha ostensiva contra as comemorações natalinas.
§  Os comissários de Athens, no condado de Henderson, Texas, passaram a receber uma enxurrada de cartas e telefonemas vindos de várias partes do país (incentivados pela sessão da FFRF em Wisconsin) por ter autorizado a colocação de um presépio de Natal (custeado por uma entidade local) no gramado em frente ao prédio do tribunal. Segundo a FFRF, os presépios trazem uma mensagem de “intimidação e exclusão” e devem ser demolidos. Não tendo conseguido a remoção, a FFRF exigiu a colocação de um banner ateísta no mesmo local.
§  Em Warren, Michigan, um advogado local, com apoio da FFRF, ameaçou processar a municipalidade se não fosse permitida a colocação – junto ao presépio – de um marco dizendo que não há Deus e que as religiões escravizam.[iv]
§  Em Elwood City, Pennsylvania, a municipalidade cedeu às pressões da FFRF e decidiu demolir o presépio que há 50 anos era montado, todos os anos, na praça principal da cidade.
§  A mesma FFRF também tentou a remoção de um banner intitulado “Keep Christ in Christmas” (Mantenha Cristo no Natal), colocado pela organização católica Knights of Columbus em Pitman, New Jersey. Não conseguiram porque o banner foi patrocinado por uma entidade privada e instalado em propriedade particular.
§  Em Lincoln, Nebraska, a America Civil Liberties Union conseguiu a remoção de um luminoso que também lembrava qual o motivo para as comemorações natalinas. Segundo o advogado contratado pela ACLU, há estudantes judeus e muçulmanos na escola em frente que poderiam ficar “doentes” com a exposição ao Natal.
§  Em Silver Spring, Maryland, um grupo de cantores de Natal foi colocado para fora de uma agência de Correios depois que o seu gerente declarou que eles não tinham permissão para cantar músicas natalinas em uma propriedade do governo. O coro foi expulso à força e sob vaias contra o gerente.
§  Em Santa Monica, Califórnia, a municipalidade dispunha anualmente de 14 áreas para a exposição de presépios em tamanho natural, montados pela população local e pelas igrejas – seguindo uma tradição mantida nos últimos 57 anos e que sempre atraiu visitantes de cidades vizinhas. Nesse ano, os ateus exigiram um espaço para suas ideias, e por sorteio, 11 dessas áreas foram disponibilizadas para ridicularizar a fé cristã com peças patrocinadas por organizações nacionais, como a American Atheists e pela Atheist United – clique aqui para ver algumas dessas mensagens. Das restantes, 1 coube para o Chanukah judeu, e apenas 2 serviram para presépios.
§  Na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, os legisladores receberam um memorando determinando que não utilizassem as saudações “Feliz Natal” ou “Feliz Chanukah” nas suas correspondências oficiais (ou seja, pagas com dinheiro dos impostos), enviadas todo final de ano aos eleitores de seus condados. Vários representantes, tanto republicanos quanto democratas, se uniram para derrubar a determinação.
§  Em Leesburg, Virgínia, a população local foi surpreendida com a colocação, no gramado do tribunal local, de um esqueleto com a roupa vermelha de Papai Noel pendurado em uma cruz, com a inscrição “Saudações dos seus amigos ateus locais”. A peça foi uma montagem feita pela “Igreja do Monstro de Espaguete Voador” (uma paródia ateísta contra a crença em Deus), que também montou um presépio trocando o menino Jesus pelo espaguete.
§  Em Nova York, as tradicionais luzes de Natal, árvores e menorahs que adornavam o St. George Staten Island Ferry Terminal foram removidas por ordem do Departamento de Transporte da cidade – em 2010, apenas uma árvore e o menorah se mantinham. Segundo as autoridades, a remoção foi por motivos de segurança de tráfego.
§  Em novembro, a Academia da Força Aérea foi forçada a pedir desculpas pelo apoio dado à Operação Natal Criança (uma iniciativa que todo ano oferece presentes de natal a crianças pobres em 100 países). Segundo a Military Religious Freedom Foundantion, houve queixas de funcionários islâmicos da academia, que entendia que a iniciativa favorecia a “intolerância religiosa”. A mesma entidade exigiu a derrubada de telas natalinas e de um menorah de uma base área.
§  Na Carolina do Sul, um voluntário de 67 anos que trabalhava como Papai Noel foi dispensado porque não correspondia às “diferentes culturas e crenças” que o instituto do câncer local queria proporcionar.
§  Em Tuscumbia, Alabama, uma queixa chamou de “inconstitucional” a apresentação da canção natalina “Silent Nigth, Holy Nigth” (é o nosso “Noite Feliz”) por crianças de 6 a 7 anos de uma escola primária. Segundo a organização American United for the Separation of Church and State, que exigiu a proibição, a letra da música refere-se a Jesus como salvador, e essa menção só pode ser feita nas igrejas ou residências. A escola decidiu ignorar a queixa.
§  Em Fort Worth, Texas, o distrito escolar local determinou que os funcionários proibissem as crianças de trocar presentes ou a tradicional bengala doce de Natal com receio de que pudessem conter mensagens religiosas. Até mesmo o Papai Noel foi banido. A um aluno foi dito que não era permitido escrever “Feliz Natal” em um cartão enviado às tropas americanas no exterior. Determinações semelhantes foram tomadas nas escolas de Stockton, Califórnia, em Newburyport, Massachussetts, e em Mesquite, Nevada.
§  Em Saugus, Massachussetts, o superintendente escolar vetou a participação de bombeiros aposentados que há 50 anos distribuem livros para colorir às crianças vestidos de Papai Noel – uma tradição seguida há 40 anos. Segundo o superintendente, essa tradição viola a separação entre a religião e o estado. Ele só foi levado a reverter a decisão porque foi convencido de que o Papai Noel é uma figura secular e não religiosa.
§  Em Boca Raton, Flórida, a municipalidade determinou a proibição total de todos os enfeites natalinos fossem proibidos em todas as áreas públicas da cidade.
Como se pode observar, a maioria dos locais onde ocorreram esses fatos são cidades pequenas, sem grande diversidade cultural, e nas quais a comemoração pública do Natal era realizada há décadas sem maiores incidentes. O que teve repercussão nacional foi o de Henderson, Texas, onde a controvérsia reuniu um protesto de 5 mil pessoas apoiando a manutenção do presépio.
Esses choques envolvendo presépios e outras figuras associadas ao Natal não tem grande importância se comparados ao que acontece em outras partes do mundo (como a Nigéria, Laos ou Uganda, onde pessoas foram mortas ou violentadas neste último Natal), porém se tornaram bem mais agressivos nos últimos dois anos[v]. Segundo o comissário do distrito de Leesburg (onde foi colocado o esqueleto), Kenneth Reid, esse tipo de agressão por parte dos ateus é gratuita, e tem por objetivo horrorizar as pessoas e aprofundar as diferenças entre elas. Para Reid – que é judeu – “Ninguém está lá fora, pregando como esses caras. Eles estão lá fora, em uma tentativa descarada de tentar acabar com a religião e arruinar o Natal das pessoas. Os grupos de ateus nos últimos dois anos têm usado isso como uma oportunidade para tentar proibir tudo”.


[i] A cláusula de estabelecimento veta que o governo, em qualquer um dos seus níveis, apoie ou patrocine uma determinada religião ou a irreligião.
[iii] Os ateus de Madison, WI, reagiram ironicamente, montando uma versão do presépio que tinha como bebê na manjedoura não Jesus Cristo, mas uma boneca de menina de matiz africana (Lucy?), vestida com roupa de Papai Noel. Outros personagens de papel compuseram o conjunto: a Afrodite de Botticelli no lugar da Virgem Maria; Thomas Jefferson como José; um Mark Twain pensativo no lugar do pastor, um astronauta como anjo, e os sábios (reis magos) representados por Marie Curie, Albert Einsten e Charles Darwin.
[iv] Esse marco, criado pela FFRF, já existe em algumas localidades para se contrapor ao Natal e diz: “Nesta época do Solstício de Inverno, deixe a razão prevalecer. Não há deuses, não demônios, nem anjos, nem o céu ou o inferno. Existe apenas nosso mundo natural. A religião é apenas um mito e uma superstição que endurece corações e escraviza mentes”.
[v] Em 2010, os eventos mais notórios da guerra anti-natalina estiveram mais relacionados a casos de vandalismo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Casal multado por reuniões bíblicas nos Estados Unidos

Um casal de San Juan Capistrano, CA, que reunia outros casais para estudos bíblicos foi multado em 300 dólares por realizar o que as autoridades locais definiram como “uma reunião regular de mais de três pessoas”, o que foi comparado como uma forma ilegal de igreja, e não como uma reunião privada.
Caso descumpram a determinação de parar com as reuniões, o casal terá multas subsequentes de 500 dolares para quaisquer outros “encontros religiosos”.
Para o procurador da cidade, o casal reúne às vezes até 50 pessoas nas manhãs de domingos e tarde de quinta-feira, causando problemas no acesso ao estacionamento das ruas em volta. Porém, para o representante do Pacific Justice Institute, Brad Dacus, a imposição de licença para estudos em casa é ultrajante. A rua onde reside o casal é semi-rural, com propriedades com mais de um acre. “Esse assunto poderia ser resolvido muito facilmente”, disse ele.
Mais de 20 grupos de estudo bíblico se encontram em San Juan Capistrano.
http://www.religionnewsblog.com/26184/us-couple-threatened-with-500-per-meeting-fines-for-home-bible%C2%A0study

domingo, 31 de julho de 2011

‘Marco Zero’: pomo da discórdia

O local chamado ‘Marco Zero’ (Ground Zero), a área onde ocorreram os atentados contra o World Trade Center em 11 de setembro de 2001, caminha para tornar-se um dos grandes polos mundiais da discórdia religiosa, mais ou menos como o setor onde está a cúpula do Rochedo, em Jerusalém.

A questão azedou-se há dois anos com o projeto de construção de uma mesquita e um centro cultural próximo à área do Marco Zero, iniciativa que desde cedo teve pesado apoio do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, e, por outro lado, a oposição de líderes cristãos de diversas partes do país.


O que precisamos entender sobre isso?


Para uma parcela da opinião pública, a construção de uma mesquita islâmica é bastante oportuna para mostrar que os Estados Unidos são uma nação multicultural, o que desencorajaria futuras ações terroristas de militantes radicais, dentro e fora do país, e que (por acaso) são de religião islâmica e sempre viram o WTC como um símbolo a ser destruído – até o dia em que conseguiram.


Contudo, para além de toda essa ingenuidade ‘politicamente correta’, há um duplo-padrão na atitude dessas autoridades quando ao uso do Marco Zero e suas imediações para construções com alto valor simbólico.


É preciso lembrar que Nova York é uma das cidades com metro quadrado mais valorizado no planeta e a construção de um prédio para finalidades religiosas é impossível sem o aval oficial, a eliminação de complexos entraves burocráticos, e um forte amparo financeiro, inclusive com recursos públicos – o que se choca com a Cláusula de Estabelecimento da Primeira Emenda, que há mais de 200 anos estabelece uma rigorosa separação entre o estado e a religião.


Essa situação contrasta com a situação de uma pequena igreja ortodoxa grega, situada dentro do Marco Zero (neste local desde 1916 e totalmente destruída pelo atentado de 2001). Sua reconstrução vem sendo sistematicamente bloqueada desde então pela Autoridade Portuária da cidade – que prefere usar o seu terreno como um estacionamento. O prefeito Bloomberg não tem dado nenhum apoio à reconstrução da igreja ortodoxa em seu próprio terreno original.


Na última semana, os ateus resolveram meter o bedelho no Marco Zero.


Sua intenção é remover uma cruz de 17 metros erguida recentemente no memorial do 11 de Setembro. Essa cruz, na verdade, é uma parte da estrutura original do WTC que foi encontrada por trabalhadores no meio dos escombros. Acabou se tornando um símbolo que homenageia os mortos naquele ataque. Para os ateus, porém, esse ícone representa apenas uma religião.


A cruz não é o único símbolo religioso presente no memorial. Há símbolos de religiões que representam os diferentes credos das milhares de vítimas dos atentados (que incluíam até mesmo muçulmanos). Mas os ateus, até o presente momento, só querem derrubar a cruz.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A casa dos horrores do aborto


Um relatório judicial de quase 300 páginas descreveu a clínica Gosnell, em Philadelphia, como um ambiente sujo e fétido, cujas condições de barbárie foram sistematicamente ignoradas pelas autoridades do estado da Pennsylvannia por mais de três décadas.
Na clínica, em que o rico Dr. Kermit Gosnell atendia a mulheres pobres desde 1979, geralmente imigrantes ou de minorias raciais, foram praticados milhares de abortos, muitas vezes em procedimentos tardios, após 20 semanas de gestação, quando os riscos são maiores – a lei estadual autoriza o aborto até 24 semanas, mas poucos médicos se arriscam a tanto. Um aborto (comum) custava cerca de 325 dólares, mas abortos “tardios” (até 30 semanas, além da lei) chegavam a 3 mil dólares. A clínica faturava de 10 a 15 mil dólares por dia.
Kermit Gosnell, de 69 anos, é um médico de família (sem especialização em obstetrícia), foi preso sob a acusação de 7 homicídios de bebês vivos (que após serem retirados foram retalhados com uma tesoura) e também de uma mulher que sofreu uma overdose de analgésicos enquanto aguarda pelo aborto. Além das condições precárias, a clínica não dispunha de enfermeiros treinados para o trabalho, e por isso quatro funcionários e a esposa do médico também foram indiciados.
Na técnica utilizada por Gosnell, o trabalho de parto era induzido nas pacientes no sexto ou sétimo mês de gestação. Então, o feto era retirado vivo do útero e depois decapitado, o que classifica o método como “aborto por nascimento parcial” (em que o bebê é retirado pelo corpo e então decapitado), uma modalidade proibida nos Estados Unidos desde 2000.
Apesar dos 46 processos movidos contra o médico, a inspeção regular da clínica foi suspensa em 1993, quando procuradores pró-aborto mudaram a política do estado.
No início de 2010, a polícia foi á clínica verificar uma denúncia sobre drogas e acabou encontrando sacos e garrafas com fetos abortados, além de um jarro de pés cortados sem nenhuma finalidade médica. O local cheirava a urina de gato, os móveis tinham manchas de sangue e animais circulavam livremente pela casa. Porém, pacientes brancas eram atendidas em uma ala reservada.
Autêntico cenário para um filme de terror.

domingo, 19 de setembro de 2010

Entrevista: “Temos Sakinehs cristãs pelo mundo”

Reproduzimos a entrevista com a jornalista Barbara Baker, da agência Compass Direct, a André Lobato, da Folha de S. Paulo, edição de 11 de setembro de 2010.

Sakineh Ashtiani é uma mulher de 42 anos condenada a morte no Irã, o que tem provocado protestos de vários outros países, inclusive do Brasil, para que a pena não seja aplicada. Para a jornalista norte-americana, casos similares têm acontecido em todo o mundo islâmico envolvendo perseguições a minorias cristãs, tanto de forma oficial (como ocorre na Arábia Saudita) como não oficial (na Turquia), e que dificilmente atraem a atenção dos governos do resto do mundo.


FOLHA- Como alguém em uma sociedade muçulmana decide se tornar cristão?

BARBARA BAKER- Bom, primeiro por que é permitido. Acho que a Turquia é o único país de maioria muçulmana em que você pode mudar de religião – que fica impressa na carteira de identidade. E como é uma sociedade ocidentalizada, muitos já viveram na Europa, aprendem sobre o cristianismo e comparam. Uma família que se torna cristã reza junto, no islã homens e mulheres são separados. Para muitas partes da sociedade não é um problema, uma garota pode virar para os pais e dizer: 'virei cristã'. Mas em vilarejos seria um grande perigo.

FOLHA- Você acha que um padre é mais aberto ao questionamento?

BAKER -Do que um mulema ou imã, sim. Tem muito mais ênfase em ler a Bíblia na cristandade do que na Turquia. O Alcorão é em árabe e as traduções não são as palavras inspiradoras de Allah. Meu locador me disse: “Nunca vou aprender árabe, então serei sempre um muçulmano de segunda classe”. Isso é uma diferença, a Bíblia é traduzida e existe um convite conjunto a todos os que têm fé a descobrirem juntos o que significa.

FOLHA- Que tipo de coisas acontecem ainda hoje na Turquia?

BAKER- Lembro que logo que cheguei houve um caso de cristãos que foram presos e apanharam muito. Trabalhava numa agência de direitos humanos e meu editor disse que se eu tivesse documentos ele publicaria. Lembro de receber ligações durante nosso fechamento com vários cristãos dizendo “publique, queremos aparecer na história, é nosso direito constitucional”. E os quatro casos ganharam facilmente na Justiça. Depois disso, muitos me ligavam quando eram presos. Uma vez no meu aniversario recebi uma festa com vários dos cristãos que eu havia visitado na prisão. Um casal de amigos foi preso na festa de casamento. E ficaram presos por uma semana apanhando.

FOLHA - Sua experiência é mais na Turquia, mas você conhece a situação em outros lugares?

BAKER- Eu viajei repetidas vezes pelo Oriente Médio, África, Sudão, Ásia Central.

FOLHA- Você poderia nos levar para um passeio nessa região?

BAKER- Nos últimos 20 anos tenho viajado a cada quatro, seis semanas.
Em muitos desses lugares, se os vizinhos querem seduzir ou sequestrar as filhas de um cristão, não há muito o que ele possa fazer. As leis estão todas do lado da lei islâmica.

FOLHA- O Pew Forum tem um mapa interessante que mostra a intolerância religiosa das leis e das sociedades em diferentes países. Como são as coisas na Índia e China?

BAKER - Na Índia acho que o principal problema são os nacionalistas hindus. Não apareciam muito nas nossas notícias, mas de uns sete anos para cá aparecem tantas vezes que algumas pessoas pensavam que éramos uma agência indiana. Na China eles estão acostumados com a perseguição. Era contra o Estado acreditar em Deus. Era normal a prisão quase “qualificar” alguém a ser padre. Mas em países assim, como Irã e Arábia Saudita, há versões do Novo Testamento na internet.

FOLHA- Mas você pode construir uma igreja na China.

BAKER - Ano passado construíram uma megaigreja. Mas ficou com tantos serviços todo domingo que, sem aviso, as autoridades vieram e demoliram tudo.
Os perseguidores podem ser o Estado, um grupo político ou até mesmo outros cristãos.

FOLHA- E entre cristãos?

BAKER- No Líbano tivemos um bispo católico que, tão dentro de suas memórias, resolveu derrubar uma igreja protestante. No Sudão, por exemplo, os heróis são os padres católicos, que resistiram contra a pressão do governo. E Ortodoxos no Egito, por exemplo.

FOLHA - Então, em vários países, a radicalização contra cristãos aumentou?

BAKER- Sim. Veja na Turquia, são ultranacionalistas islâmicos. Na Turquia vem dos nacionalistas. Nos últimos cinco anos, tivemos seis assassinatos realmente chocantes. Um padre, um jornalista armênio, dois turcos que convertidos e um alemão. Isso chocou a Turquia, por que os torturaram por várias horas e cortaram suas gargantas. E ficaram particularmente furiosos com os que haviam se convertido. E em junho deste ano o bispo líder católico foi morto por um sujeito que o esfaqueou até a morte gritando Allah. Os turcos não sabem o que fazer com isso. Esses três tiveram um dos maiores enterros de cristãos que já aconteceu no Oriente Médio. Quase 250 mil turcos muçulmanos andaram do lugar onde eles foram mortos até a catedral armena. E sua viúva disse as palavras de Cristo, “Pai, perdoai-vos por que eles não sabem o que fazem”, e disse que perdoava o assassino. As viúvas o perdoaram. Um jornalista turco disse: “Isso é mais forte do que mil missionários trabalhando na Turquia por mil anos”. Por que é uma cultura da vingança, e eles não conseguem entender.

FOLHA - Sobre a cultura da vingança, você acha que é algo do momento?

BAKER - Acho que fanáticos muçulmanos estão usando a religião e eles podem encontrar algumas referências úteis no livro. Eu não acho que meus vizinhos turcos são do tipo que querem me matar. Mas não sei o que eles pensam. Eles tentaram que eu virasse uma muçulmana porque é a última religião. O islã e o cristianismo são as duas únicas grandes religiões que querem converter as pessoas. O que dá muita notícia na Turquia é quando um cristão vira muçulmano. Como ocorreu no velório de um dos ativistas da flotilha de Gaza.

FOLHA- Seria como um choque entre duas religiões que querem converter a todos. Como cristã você quer evangelizar?

BAKER- Meu sentido é o de perdão, e essa é a maior relação com Deus que eu posso ter. Eu sei que meus amigos turcos não acreditam que isso é possível. Por que é impossível ter certeza, no islã, de que ao cruzar aquela ponte você vai cair no inferno ou não. Só Deus pode saber. Eles acham que é arrogância dos cristãos pensarem que podem realmente saber. Mas eles não podem negar que eu experimento a paz. Eu os respeito. Talvez eles achem que eu sou cega por ter essa falsa certeza. Mas eu realmente acho que não, por que eles sabem que o nos guia no cristianismo não é a culpa, mas a resposta ao amor. Por que Deus sabia da minha inabilidade de merecer meu caminho no céu e se dispôs a tomar a pena em meu lugar.

FOLHA - Sobre esse choque, às vezes dá a impressão de que as pessoas estão se sentindo tão pressionadas pelo Ocidente que pedem para uma religião forte o suficiente que lhes de autonomia, proteção.

BAKER- Na Turquia o Estado é secular. Como posso acreditar em democracia e direitos humanos e em um Estado secular que não impõe religião a ninguém. Se sou um bom muçulmano, quero que eles se juntem.

FOLHA- Há casos de intolerância no Brasil em que cristãos acusam religiões afro-brasileiras de serem o demônio. Deve ser difícil acreditar em uma verdade e conviver com quem é o demônio. Será que isso não ocorre com o islã e o cristianismo: os modelos mentais não podem conviver no mesmo território?

BAKER- Não acho que isso seja totalmente verdade. Não precisa ser. Tem de haver amor e respeito por outro ser humano. Que é o que aconteceu com os homens que foram mortos na Turquia. Eles eram gentis, não gritavam pelas ruas. Um deles tinha memorizado o Alcorão. Ele tinha muito respeito. Mas encontrou em Jesus amor e respeito. Não acho que deva haver esse choque, do tipo violento. Eu me lembro que a Tchetchênia foi o primeiro lugar em que escrevi sobre onde as pessoas estavam sendo decapitadas por causa de religião. E acho que isso possa ter acontecido há séculos atrás, eu não sei, por pessoas que se chamavam de cristãs e que queriam estender a religião. Mas não poderia ter acontecido por alguém que realmente entendeu as palavras de Jesus, por que é um convite, e não uma obrigação. Acho que há muita falta de compreensão.
Vemos em Nova York um projeto de construção de uma mesquita no Ground Zero . Há pessoas que vão as ruas e dizem não, vocês são terroristas. Isso é um extremo. Hoje vivo mais tempo no Oriente Médio do que nos EUA. E quando saí dos EUA não havia nenhuma mesquita em meu Estado, Oregon. O que eu vejo que é um pouco de cegueira do mundo islâmico. Não há nenhum compromisso com reciprocidade. A Arábia Saudita vai algum dia permitir que uma igreja seja construída lá? Não. Isso seria uma violação da terra santa do islã. Mas eles têm mesquitas por todo o Ocidente. E eles ativamente convertem, especialmente mulheres americanas, a se casarem com muçulmanos. E elas são mais religiosas que os muçulmanos comuns. E por que alguns são extremistas, ficam com o nome sujo. Eu vi, por exemplo, como os americanos ficaram furiosos com os iranianos depois da revolução e a crise dos reféns.

FOLHA- Mas qual é seu ponto em relação à mesquita?

BAKER- Entendo por que patriotas americanos estão chateados. Mas não acho o tema tão importante. E o que é, é a verdadeira liberdade religiosa, em todas as partes, em todos os lados. Há países construídos sobre liberdade religiosa. Como Brasil e EUA. Os que não o são, deveriam dar esse tipo de liberdade também?
Acho que próximo do direito à vida, é um dos mais importantes para o ser humano. Uma vez conversei com um juiz do Egito que achava que não fazia sentido obrigar alguém a ficar no islã. Mas tinham guardas o protegendo, por que a Irmandade Muçulmana não gostava do que ele dizia.

FOLHA- Então o Ocidente é muito tolerante com a intolerância religiosa?

BAKER- Eu não diria... Acho que são ingênuos. Há um tempo conversei muito com um líder paquistanês sobre o mundo muçulmano e seu objetivo de conquistar o mundo. Ele disse que estavam nessa direção. Havia alguns problemas na Argélia, por causa das guerras e matanças. E disse: “Isso não nos faz ficar bem mais ainda sim nós chegaremos ao poder na Argélia, Turquia, demorará mais tempo, teremos que ir devagar, mas chegaremos ao poder”. Me chocam as notícias que leio do meu próprio país. Dois evangélicos que largaram as drogas e estão compartilhando sua fé na praia. Um cara se sente irritado e dá um tiro na cabeça deles. Faz alguns meses. Se fosse no mundo muçulmano eles estariam derrubando igrejas. Mas nem teve cobertura alguma na mídia americana. Em Detroit, há pouco tempo, dois caras foram presos por tentarem evangelizar em uma festa da comunidade árabe. A polícia disse que estavam sendo inoportunos. Isso é América ou o quê? Ser politicamente correto é ir para o outro lado: temos que ser muito cuidadosos pois os muçulmanos podem ficar bravos. A decisão Suíça sobre os minaretes... Naquela mesma semana na Turquia um cara foi a uma igreja ortodoxa e ameaçou de morte o padre caso ele não derrubasse um sino que está lá há séculos.

FOLHA -O Ocidente é muito frágil em defender sua história como sociedade cristã?

BAKER- Não pode mais ser chamada de sociedade cristã. Tem raízes judaico-cristãs. Uma vez um padre muito sábio me disse que é impossível ter diálogo efetivo se você é inseguro em relação a suas próprias crenças. Na Turquia é muito interessante conversar com ulemas e imãs que realmente sabem o que o livro diz. Tão poucos sabem. A maneira como as religiões se relacionam muda ao longo da história. Judeus já foram melhor tratados entre muçulmanos do que entre cristãos. A liberdade religiosa é possível? É possível mas um pouco sobrenatural. É preciso ter o espírito do perdão. Conheci um homem que se converteu na prisão. Seu irmão ficou mais aborrecido dele ter se convertido do que ter sido parte da jihad. Você não estranharia a conversão ao islã de um cristão que frequenta a igreja todo domingo? Uma vez conheci uma americana que casou com um paquistanês e se converteu ao islã. Ela disse que ser católica não trouxe nada para ela. Aí me ocorreu de perguntar se ela era realmente lia a bíblia, se realmente conheceu Jesus. E ela admitiu que ia a igreja uma vez por ano. Então para mim existe o cristianismo folclórico como existe o islã folclórico, que tem muita superstição. O típico americano diria que é um cristão ou nada. Tem uma diferença entre quem frequenta a igreja e tem uma relação pessoal com Jesus.

FOLHA- A perseguição aos cristãos é diferente quando falamos de Estados ateus? Perseguem todas as religiões igualmente?

BAKER- Não complemente. Comunismo e marxismo se deram conta muito cedo de que a Igreja era uma ameaça por que eles colocariam Deus acima do Estado. Mas eles não perseguem todas as religiões igualmente.
Há um verso no Alcorão que diz que é válido mentir se isso serve ao propósito. Mas um cristão diria, eu enfrentarei as consequências de falar a verdade, nunca é honroso a Deus mentir. Então eu descobri que em algumas culturas islâmicas que eles não querem enfrentar os governos. Não vou dizer que é sempre o caso. Claro que há vários islâmicos aprisionados por terem ameaçado o governo.

FOLHA- Você é jornalista e tem uma bandeira. Você cobre sua própria tendência.

BAKER- Eu não ataco nenhuma religião. Quero ser o mais precisa possível. Mas sei que tenho uma tendência. Quando me dizem que são imparciais eu digo, isso é impossível. Eu tenho o foco nos cristãos, mas quando vejo, por exemplo, o caso dos armadis, que são muçulmanos perseguidos, também publico.
Lembro quando um evangélico ouviu do diretor da televisão em que trabalhava de que não poderia ser imparcial por sua religião, e ele respondeu: “E você, não votou na última eleição?” Sobre o caso Sakineh, teve muita crítica interna na Turquia, questionando por que o Brasil e não a Turquia, que está ao lado, tem que fazer isso. Embora muitos não gostem de que não haja mais pena de morte lá, por que o líder curdo está na prisão opinando nos assuntos curdos e muitos gostariam que ele já tivesse ido. Mas nunca concordariam com o apedrejamento.

FOLHA- Há 'sakinehs' cristãs ao redor do mundo?

BAKER - Temos um problema terrível de morte por honra no interior da Turquia. Seja os que matam as próprias filhas ou os que as forçam a cometer suicídio. Por que o simples ato de paquerar um menino na escola pode destruir a honra de uma família. Uma mulher que escreveu um livro sobre o assunto mostrou que muitas vezes as mortes não são baseadas em fatos. Não acho que com apedrejamento. Mas sei que na Somália isso está acontecendo. Somalis que viram cristãos são decapitados. O chefe de nosso escritório da África viu isso acontecer. Isso já aconteceu na Arábia Saudita.

FOLHA- Você acredita que Obama seja um muçulmano?

BAKER- Não acredito que ele seja um muçulmano, mas também não sei se ele é um cristão devoto. Não cabe a mim. Eu não fico surpresa que muitas pessoas pensem isso, por causa do pai dele e do nome Houssein. Muitos dos cristãos de direita dos EUA estão muito chateados por ele aparentemente agradar muçulmanos, como com a mesquita no Ground Zero. Mas também eu não concordava muito com o que o Bush dizia. E, apesar dele ter chamado o Islã de uma religião da paz, para o mundo muçulmano ele os atacou em nome dos cristãos.

FOLHA- Obama é amigo de mais do islã?

BAKER- Ele quer ser. Seu primeiro discurso foi em Istambul, para o mundo muçulmano. Ele quer retirar as conotações religiosas, o que é muito difícil pois as sociedades islâmicas são muito religiosas, em oposição a América, tentando ser mais secular. E mesmo que tenhamos uma comunidade religiosa conservadora muito forte, o modelo mental do governo é muito diferente. Encontrei pessoas de embaixadas americanas por todo o mundo e eles são muito antirreligiosos. Não vivem numa sociedade religiosa e não sabem como é. Esse paquistanês que disse que o islã vai dominar o mundo, será uma vitória para a lei islâmica? Eu não sei quantos muçulmanos querem viver sobre a sharia. Mas não vejo um grande fluxo de pessoas indo viver na Arábia Saudita por suas normas extremamente restritas e sua maneira de se vestir. Um amigo foi preso lá por alguns meses sob a acusação de converter algumas pessoas. Ele disse que havia de 75 a 10 mil cristãos lá, mas eles não vão contar a ninguém que são cristãos, por que podem ser executados. Conheço um paquistanês que se converteu e fugiu para a Coreia, foram até lá e o mataram. Mas há cristãos que entram na Justiça, por exemplo no Egito, para afirmar seu direito de mudar de religião.

FOLHA- Você acha que guerras como do Iraque e do Afeganistão deram poder aos intolerantes?

BAKER- Acho que era nossa de obrigação e direito como americanos dar uma resposta direta para essas pessoas que nos atacaram de uma maneira tão horrível. Mas o resultado foi muito custoso para os cristãos nessa parte do mundo. Por que as ações do Exército americano são vistas como um ataque dos cristãos. Ficou muito, muito difícil para os cristãos. Fico muito triste de ouvir que cristãos, que eu chamaria de fanáticos, planejam queimar o Alcorão. Alguns fazem isso em resposta a mesquita do Ground Zero. E muitos cristãos americanos estão contra isso e dizem: “Vocês percebem que imediatamente eles vão atacar igrejas e matar cristãos em vingança?”. É tão ridículo e atrasado. É um efeito boomerang. É uma falta de compreensão de princípios básicos da cristandade. Já expliquei a vários muçulmanos, “você tem ideia o quão é uma blasfêmia para dizer você dizer que Jesus Cristo era apenas um profeta”? Por que ou ele era mentiroso, louco ou era Deus. Eles dizem que Deus permitiu a cristandade existir para fazer a revelação final depois. Mas eles não se dão conta de a Bíblia e o Alcorão não concordam em muitas coisas. Para mim, é blasfêmia. E eu não vou queimar uma mesquita por causa disso.

FOLHA- Você acredita que a tolerância religiosa depende de aceitar blasfêmias, como que Jesus é só um profeta?

BAKER- Isso não atinge a minha fé. Eu entendo quem pensa assim, mas não vou ficar com raiva.

FOLHA- Mas não há partes na Bíblia ou no Alcorão que pede para você vingar seu Deus?

BAKER- Na Bíblia não. Por que como disse uma das viúvas na Turquia, é que “uma das maiores vinganças é ver aqueles que mataram meu marido virem a Jesus”. Eles vão ter três sentenças de vida consecutivas. E a viúva criando seus filhos sozinha disse que se sentia mal por eles. Ela pediu para visitá-los e as autoridades não deixaram. As crianças disseram na imprensa Turca: queremos levar uma Bíblia para eles, que poderão ir para o céu e dizer “desculpa papai”.