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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Tolerância, cinismo e a vida dura dos ateus (segundo Eliane Brum)

Em sua coluna na Vanity Fair, o recentemente falecido Christopher Hitchens adorava comentar sobre algum aspecto bem detestável da vida cristã nos dias de hoje – geralmente alguma excentricidade americana, como o governador do Texas, Rick Perry, ter dirigido uma oração pedindo por chuva – para, em seguida, pulverizar veneno sobre toda possível crença em Deus, em todo lugar e em qualquer época.
Essa prática argumentativa se chama indução, e faz com que o leitor se familiarize com situações absurdas (porém, muito específicas) para em seguida induzir sua compreensão particular sobre uma realidade muito maior, da qual não podemos (humanamente) entender na sua totalidade. Esse tipo de prática é desaconselhável em se tratando de filosofia, mas é um recurso amplamente usado no campo no jornalismo. Não é mentir, mas também não é dizer a verdade.
Hitchens deixou seguidores. Em artigo na revista Época (15.11.2011), a jornalista Eliane Brum usou e abusou desse recurso ao usar uma situação real para explicitar o que seria dos ateus em um Brasil com a presença cada vez maior dos evangélicos, cada um (imagina-se) esforçando-se para dizer a todos que quem não aceitar Jesus, não será salvo.
Segundo ela, o taxista evangélico que ousou convidar uma jornalista ateia para visitar uma igreja foi “doutrinado” para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Logo, ele não resolveu falar sobre Jesus por uma inclinação pessoal, mas porque a religião o tinha transformado em um ser intolerante – da mesma forma como os ‘carecas do ABC’ infundem atributos pessoais conforme a cor da pele, origem regional ou forma de relação sexual. Em busca de uma explicação melhor, a autora do artigo foi até ao site da igreja dele e saiu apavorada com uma mensagem intitulada ‘O perigo da tolerância’. Estava aí a senha que pode tornar, no futuro, um jovem taxista animado em um perigoso terrorista cristão potencial.
A mensagem indireta é muito clara: “– Você está errado em não ficar preocupado aí. Faça alguma coisa”. Os argumentistas dessa categoria costumam colecionar pequenas notícias (ou, na falta delas, situações sem nenhuma importância prática) para construir conceitos concordantes com sua visão pessoal a serem compartilhados da forma mais sutil possível com os que ainda não têm conceito algum. Sites ateístas que relacionam crimes e falcatruas cometidas por pastores... sites evangélicos que listam escândalos de pedofilia (mas somente os cometidos dentro da Igreja católica)... sites católicos que listam dezenas de igrejas protestantes e seus fundadores (mas nenhum deles é Pedro)... A indução é muito utilizada. Não é ética, mas geralmente funciona.
Contudo, se podemos concordar na necessidade de respeito para a convivência mútua dentro de uma sociedade “cordial”, temos, por outro lado, que admitir que essa convivência requer, no mínimo, o respeito a requisitos da ética, entre os quais se encontra a obrigação de falar dos fatos como realmente são.
Fui ao site da igreja Novidade de Vida ler a íntegra da preleção 'O perigo da tolerância', que pode ser conferida em http://www.novidadedevida.com.br/2011/11/o-perigo-da-tolerancia/
Qualquer leitor devidamente alfabetizado poderá conferir que a mensagem não trata da relação com outras pessoas e/ou religiões, mas à forma de cada um lidar com seus próprios vícios ou os que existem dentro de sua família - e, antes que a criatividade queira determinar que vícios são esses, os citados foram a perdulariedade financeira, a insubordinação aos pais e a pornografia, ou seja, situações em que não é preciso crer em Deus para se tomar alguma providência séria para evitá-las.
Se antes falávamos em sutilezas filosóficas da argumentação, agora não vemos sutileza alguma. Destacar uma frase e direcioná-la a um contexto que não corresponde ao sentido da mensagem sobre a tolerância não é algo que se espera da mais elementar ética, seja no jornalismo, seja na vida cotidiano. Isso não é fazer o bem. Não é ser honesto.
Por outro lado, o artigo me fez lembrar outras situações presentes, até mesmo em minha vida pessoal. Temos que admitir que a jornalista passou por uma situação “leve”, sem constrangimentos. Ela não deve ter perdido o sono naquela noite, e não teve nenhum desconforto a não ser conversar com um desconhecido em uma perspectiva que definitivamente não era a dela.
Pois na mesma data em que era publicado o artigo, conversei com um cidadão que não gostou que se falasse em igreja, gritou dizendo que odiava Deus, e que Jesus era ainda pior. Esse, porém, não quis mudar de assunto, começou a me ofender em via pública, me chamando de 'fascista' e acabou por esmurrar a frente do meu carro. A jornalista devia se sentir contente por apenas um sorriso nervoso.
Observem. Eu não vim aqui me queixar dizendo que ateus são esbravejadores intolerantes e que agridem as pessoas. São comportamentos individuais. Exatamente como o do taxista e da jornalista. Há comportamentos tanto intolerantes quanto tolerantes entre evangélicos, ateus, umbandistas, católicos ou islâmicos. Qualquer um pode ter a opinião que quiser sobre esses grupos, mas não é nada correto abstrair um comportamento geral a partir de atitudes pessoais. Essa, basicamente, é a essência do racismo.
Não presumam que o crente nunca saiba o que é agnóstico ou seus correlatos, ou que seja um analfabeto funcional disposto a tirar do casaco uma Bíblia e tacar na sua cabeça.
Não é nada sensato, como também me ocorreu há poucos dias, que um ateu tenha insistido comigo que cremos em todas as histórias registradas na Bíblia exatamente como estão lá – o que nem os teólogos mais conservadores admitem. Os crentes sabem que algumas leituras são temporais e que não devem ser compreendidas como manuais científicos. Assim como extrapola a qualquer racionalidade que um outro tenha vindo a exigir a aprovação do PL122 contra os 'hipócritas' e 'fanáticos', para acabar com o preconceito, quando justamente o preconceituoso era ele.
Se alguém realmente está preocupado com atitudes intolerantes, o mínimo que se espera desse alguém é que compreenda as diferenças de opinião, e que não venha a estimular opiniões intolerantes ou carregadas de preconceitos ao induzir que apenas um grupo (e somente ele) é o instigador de violências imaginárias.
Nós, crentes, temos bem maior conhecimento e sensatez do que o meio comum admite que tenhamos. Só ainda não temos espaços para demonstrar isso.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Edir Macedo perde o juízo: será que bebeu?

Em seu caminho para o ateísmo, o líder-proprietário da Igreja Universal, bispo Edir Macedo tem passado nos últimos anos por uma série de redefinições pessoais.
No último de seus ataques, Edir Macedo comparou os cultos das igrejas pentecostais aos terreiros de candomblé (como se a IURD não tivesse nenhuma semelhança) e chutou em 99% o percentual de cantores gospel endemoniados (seguramente, nenhum da Line Records).
O bispo abortista foi incisivo: “Todos os pastores e líderes que caem pelo poder de Deus estão endemoniados, estão literalmente possessos. Se vierem na Igreja Universal do Reino de Deus, vão cair. Agora eu quero ver colocar a mão na minha cabeça e me fazer cair. Eu agora faço um desafio. Vocês podem vir 7, podem vir 70, podem vir 400 profetas lá das outras igrejas que caem pelo poder, vocês todos, e ponham a mão da minha cabeça. Se eu cair, eu vou aderir a essa doutrina.
Ana Paula Valadão, do Diante do Trono, foi usada como exemplo, por ter ‘caído em unção’ durante um culto ministrado por um pastor finlandês.
Em fevereiro, Edir Macedo admitiu que bebe cerveja, desafiando uma tradição no meio evangélico – do qual, aliás, está cada vez mais distante: “A religião proíbe beber cerveja, mas eu bebo cerveja quando eu estou com vontade eu bebo e acabou! E quem é que vai me dizer pra eu não beber?”.

Comentário 1: Descontando a descortesia para com os cantores gospel, o fenômeno de ‘cair pelo poder’, rodopiar na igreja e outros chiliques deve ser tratado com seriedade e cuidado pelos evangélicos. A maioria das igrejas (mesmo as pentecostais) rejeita esses excessos, e seria ingenuidade acreditar que os líderes não se preocupam com suas semelhanças com ritos afro ou com terapias xamânicas.
Edir Macedo não está errado.
O problema é: que moral tem a IURD para falar disso?
Todo mundo sabe que a igreja tocada pelo bispo Macedo especializou-se em sessões de descarrego, sabonetes de arruda, objetos ungidos e outras práticas cristianizadas das mais baixas superstições do folclore brasileiro.
Por que agora o bispo está tirando o corpo fora?

Comentário 2: Há muitas referências à bebida na Bíblia. É sempre uma fonte de alegria e também uma causa de sérias confusões. Qualquer afirmação no sentido de que não se pode beber nunca desemboca em um legalismo incompatível com a maturidade cristã. Por outro lado, dizer que se pode beber (mesmo “socialmente”) é um convite à irresponsabilidade.
Alguns alegam agora que o impedimento à bebida por parte do movimento evangélico foi uma situação temporal, criada em um momento em que na Europa o alcoolismo imperava, e por isso o governo europeu (SIC) criou centros de recuperação de alcóolatras, e os primeiros missionários vieram ao Brasil com esse tipo de visão sobre o consumo da bebida. Na realidade, os missionários vieram dos Estados Unidos (não da Europa), o alcoolismo existe em qualquer parte do mundo e os governos jamais criaram centros de recuperação para o vício que tivessem vínculos com igrejas ou missões.
Mas, se partirmos do ponto de que sim, o crente pode beber livremente, teremos que cuidar para não chegar ao ponto de sermos incluídos entre os “beberrões” (1Cor 6.10, Ave Maria), de que Paulo fala que não herdarão o reino de Deus. Se quisermos fazer um critério de situações em que a bebida é esporádica e moderada, e quando se torna um vício devastador que destrói carreiras e lares, a diferença é apenas a quantidade. Ou seja, abre-se a porta, abre-se toda a porteira.
Outros sustentam – mais por vaidade bíblica do que qualquer outra coisa – que não se encontra na Bíblia nenhuma proibição de beber – salvo o voto de abstinência, temporário e especial, do nazireu (Num 6.3), que sequer podia comer uvas – e que, pelo contrário, em Mat 11.19, Jesus fala que diziam dele que era um “glutão e um beberrão” – em comparação direta com João Batista, que nada bebia e tinha como iguaria os gafanhotos do deserto. O primeiro grande milagre registrado nos Evangelhos (João 2), na festa de casamento em Caná, é a transformação da água... em vinho.
Desse jeito, chegaremos ao ponto de existirem bafômetros nas igrejas!
Não. Não há por que termos, enquanto cristãos, de definir o ponto em que o consumo de álcool é moderado, e quando é um vício incontornável. A questão está sempre no propósito.
Qual o propósito de beber?
Tomar coragem para fazer algo que se sabe que é pecado? Esquecer a inibição masculina diante dos problemas e sentir-se forte para uma agressão física? Sentir-se inserido em um círculo de amigos contadores de piadas – nome novo para ‘roda de escarnecedores’?
Se esses são propósitos comumente aceitos para o primeiro copo de bebida, então a quantidade é indiferente.

Comentário 3: Deixem o Edir Macedo beber. Ponham-se na situação dele. É alguém que, no fim das contas, fez mais mal do que bem ao Evangelho. Ele sabe que vai para o inferno, pelos males que tem causado à Igreja e pela disseminação de tantos modismos que agora ele critica. Por que privá-lo do prazer da bebida nos anos que restam à sua vida?

quinta-feira, 10 de março de 2011

Paz para todo o mundo

Olá, a paz... (como fazer a saudação ???)
Paz do Senhor, como os evangélicos pentecostais?
Graça e Paz, como geralmente os evangélicos não-pentecostais?
ou Paz e Bem, como os católicos?

É interessante observar como até mesmo a saudação cristã mais simples se submete às divisões existentes no cristianismo de nosso meio. Certamente, se eu fizesse uma comparação mais ampla, surgiriam ainda outras variações.

No entanto, essas variações correspondem ao contexto da cultura, e não necessariamente da fé. Procurei fazer uma pesquisa etimológica sobre a diferença entre "orar" e "rezar" e, pelo que consegui apurar, elas não existem quanto ao significado original dos termos. Nem existe essa diferença em outras línguas.

Contudo, não se pode simplesmente deixar de lado o contexto cultural, que nos remete a um significado de rezar ligado às “rezas” como recitações mecânicas, visando a um fim mágico, ou, pela sua quantidade e/ou intensidade, convencer Deus a mudar o destino pela insistência.

Sim, é bem isso que Cristo responde sobre não orar usando de vãs repetições (Mat 6.7).
Porém, no rigor que a abordagem da Escritura exige, essas vãs repetições (que constam no texto das versões protestantes - as católicas, cuidadosamente, apenas alertam para que "não multipliqueis as palavras") podem ocorrer tanto no rezar padronizado e contabilizado pelas contas do rosário, quanto na oração "forte" dos profetas ocasionais, cheia de cacoetes automáticos e imitativos em que parece que a língua, sozinha e descontrolada, assume o lugar da consciência no ser.

Querido, o Espírito Santo não é um bicho irracional que, incitado e acuado por uma sequência de glórias e aleluias, se esvai em vocábulos incompreensíveis para manifestação da glória de Deus. Na hora que for necessário interceder em oração, Deus quer a tua palavra sincera e o teu coração quebrantado, e tem toda a paciência do mundo para esperar até que venha a tua voz. O Espírito não falará por ti.
Se você aprendeu ou descobriu uma técnica pessoal para se fazer falar em "língua estranha", parabéns, bem-vindo ao mundo dos gentios, do paganismo e da feitiçaria.

Então, passar das crendices incubadas no catolicismo para uma ladainha evangélica repleta de palavras de guerra é um retrocesso?
De modo algum.

Não creio que o modo de passagem do catolicismo para a fé evangélica esteja nas minúcias doutrinárias que desenvolveram a Reforma protestante do século XVI (e que não fazem nenhum sentido hoje). É ridículo achar que católicos se preocupam com "fé e obras", enquanto que os evangélicos apenas com "fé", e mais ridículo ainda é que se dá ao trabalho de achar comprovações ocasionais da diferença de comportamente baseada nesse critério.
Não se deve desprezar a busca pela interação com a divindade que antes era inexistente, e é inevitável que boa parte da descatolicização tenha surgido da revolta genuína contra o obsoleto sistema de ritos encarnado no catolicismo tradicional - embora sempre existirá quem aprecie eles, na falta de coisa melhor. Claro que isso desemboca em uma onda de "conversões", mas esse não é o único caminho.

O perigo está em que, ao fazer tábula rasa de dois mil anos de cristianismo litúrgico e tentar construir uma fé exaustivamente alicerçada na Bíblia (como se fosse original), o evangelismo trilha as mesmas dúvidas de toda a longa trajetória da Igreja cristã - e, inevitavelmente, os mesmos erros. Por isso não é tão descabida assim a ideia de uma "reforma da Reforma" (embora seja inteiramente errada do ponto de vista histórico, pois não está se reformando a Reforma mas um reflexo distante desta para ser mais igual à própria Reforma).

Então vou terminar essa mensagem sem saudação alguma.
A todos somente a Paz, que é suficiente para expressar algo que está acima das diferenças culturais dentro da sociedade e que pensamos serem de fé.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Eu penso que posso


“Não pense tal homem que receberá do Senhor coisa alguma; homem vacilante que é, e inconstante em todos os seus caminhos”

Tiago 1.6-8

A frase constante de “The Little Engine That Could” (clássico infantil que valoriza o otimismo e a determinação) pode ser bem o lema de Hermas de Roma, um autor do século II, cujo texto, O Pastor, foi escrito durante o período formativo da história cristã, logo após a morte dos Apóstolos.

Na ausência de uma autoridade apostólica, Hermas e seus contemporâneos buscaram o melhor jeito de conciliar o ensino que tinham aprendido dos apóstolos com a sua própria realidade, obtendo maior ou menor sucesso. O Pastor de Hermas é uma narrativa intrigante que força o leitor a revisitar ideias que são geralmente vistas como surgidas apenas na atualidade. Em seu livro, Hermas relata a visão de um anjo que lhe entregou lhe ensinou parábolas vestido como pastor de ovelhas.

Cerca de ¼ do texto é composto dedicado a mandamentos para uma vida santa para que Hermas recuperasse o favor de Deus, perdido após uma vida de pecado. Um desses mandamentos é o que o Pastor dirige aqueles que têm “fraqueza de fé”:

Não esteja tíbio sobre pedir a Deus sobre algo, dizendo a si mesmo, por exemplo: ‘Como eu posso pedir algo de Deus e receber o que peço, se pequei tantas vezes contra Ele?’ Não argumente dessa forma para si mesmo, mas volte-se para Deus com todo o seu coração e pergunte a ele sem hesitação, e você saberá a compaixão extraordinária dEle, porque Ele nunca o abandonará, mas cumprirá seu pedido de coração.... Assim, limpe seu coração de todo duplo ânimo e vista-se de fé, porque Deus é forte, e confie que você receberá todos os pedidos que fizer.

A fraqueza de fé de Hermas se manifestara em uma falta de confiança em sua relação e postura com Deus. Em sua forma mais avançada, ele começara a duvidar do que Deus havia prometido que faria com ele. Essa tibieza atrofiara a sua relação com Deus porque destruíra a confiança, e nenhuma relação pode funcionar sem confiança.

Como remédio contra a fraqueza de fé, o Pastor prescreve a própria fé. Assim como a dúvida destrói uma relação, a fé a reconstrói. O Pastor vê a fé como uma ação que tem um objeto: um homem fiel à sua esposa, um homem de negócios fiel aos seus contratos. Para Hermas, ser fiel significa ser fiel para Deus, confiando no que Deus tinha revelado para ele ser, e agindo apropriadamente na luz dessa revelação. Isto tinha aplicações imediatas e práticas na vida de Hermas, porque ele já estava em dúvida se poderia cumprir os mandamentos que o Pastor estava lhe dando. Hermas soube então que Deus tinha prometido prover força para a sua vida santificada, porém, em sua tibieza, ele agia como se não soubesse nada sobre a ação de Deus.

A reprimenda do Pastor a Hermas é instrutiva ainda hoje. A fraqueza de fé é uma doença insidiosa que frequentemente passa despercebida, mas tem um potencial destrutivo. A ignorância de Hermas sobre sua condição deveria sinalizar aos cristãos modernos que desejam vencer o obstáculo da falta de fé. Um bom começo para isso está em nossas orações. Quando fazemos nossos pedidos a Deus, nós o fazemos com fé, com uma expectativa condizente com o poder e generosidade que Deus demonstra ter nas relações conosco, ou nós fazemos de forma tíbia, colocando em dúvida se Deus concederá? Se nos acharmos na situação de Hermas, então precisamos vitaminar nossa fé. Um bom começo seria refletindo em quem Deus mostrou-se a si mesmo, o que pode ser encontrado tanto na Bíblia como em nossas vidas. Deus demorou milhares de anos para formar o Seu povo. Nossa responsabilidade é lembrar quem Ele é, como se revelou a nós, e como age conforme aquelas promessas. Felizmente, muitos trilharam por esse caminho antes de nós, e Deus esteve com eles. Depois de 4 mil anos de interação, podemos estar seguros de que Deus “é o mesmo ontem, hoje e eternamente”.

Por Jonathan Nichols, em http://evangelicaloutpost.com/archives/2010/11/i-think-i-can.html

domingo, 4 de abril de 2010

Para salvar o que se havia perdido

Quando algumas pessoas reclamam que a pregação do Evangelho se preocupa muito com os bêbados, drogados ou presidiários, costumo responder que Cristo veio “salvar o que se havia perdido” (Mat 18.11).

Na realidade, é uma resposta-padrão.

Como cidadãos imersos em uma sociedade secular, ainda não compreendemos integralmente o que é “ir” em busca do perdido. Nosso foco ainda é a edificação da imagem de um grupo vistoso na sociedade para que esta, vendo o bom exemplo, venha a seguir nossos passos.

Ir em busca dos perdidos, descer aos presídios e becos, é algo que muitas lideranças da Igreja estão plenamente dispostas a ir, mas desde que sem sujar as mãos...

Em nosso mundo, o que (ou quem) é o perdido?

Buscando uma resposta para essa questão, me lembrei do testemunho de Luiz Carlos Clay, que esteve em minha cidade há uns 3 anos, e sabe muito bem o que estar perdido.

Para quem não conhece, Clay foi um dos grandes nomes da Jovem Guarda, que fez um grande sucesso no final dos anos 60 e início dos anos 70.

Porém, mais que o declínio da Jovem Guarda, o que afundou sua carreira foi o alcoolismo, que minou toda a sua vida social, retirou a família de seu contato e finalmente o colocou várias vezes no “fundo do poço”.

Sabem a música “Garçom” do Reginaldo Rossi? O bêbado era ele...

Na verdade destruí tudo; joguei tudo fora; perdi o dinheiro; perdi o respeito de todo o mundo; perdi o rumo...”

Então, um dia, quando o vício do álcool lhe fazia tudo parecer sem esperança, Luiz Carlos Clay teve seu primeiro contato com o “ópio”.

O ópio que me refiro aqui é o “ópio do povo”.

Como filho de pai comunista – recebera seu nome como homenagem ao secretário-geral do PCB – Clay aprendeu em casa que Deus era uma ilusão e que TUDO é possível pela vontade do próprio homem. Quando quisesse, era só decidir largar a bebida e restaurar tudo novamente: família, carreira, dignidade...

O problema é que Clay nunca decidia parar de beber.

Que força é essa superior ao homem que o fazia rodopiar em torno de si mesmo?

Há uma força superior ao potencial humano, superior à bebida e superior até mesmo à nossa pretensão de elevar diante do mundo Igreja impoluta, moderada, bem sustentada doutrinariamente e moralmente estável.

Dentro de uma ordem brutalmente secularista, o mundo espera que a Igreja cumpra ainda mais a sua função de recolher os “restos” da sociedade a fim de torná-la mais homogênea e não que vá se intrometer chamando a torto e a direito as pessoas de perdidas ou que precisam de uma salvação que não está ao seu alcance.

É a tese de uma Igreja “terapêutica”, que é apenas tolerada enquanto cumpre essa função que o século lhe designa – mas que tem que ser afastada quando tenta interferir na vida de pessoas cujo potencial humano lhe pareça mais bem sucedido do que os bêbados das ruas ou os drogados e meliantes dos becos.

Diante de críticas cada vez mais exasperadas, a Igreja costuma se recolher na pequenez de teologias minimalistas, na certeza (que não deveríamos ter) de que a justiça ou a salvação são previamente espelhadas em ações de mérito, que são (sem qualquer coincidência) exatamente aquelas que o mundo espera que a Igreja cumpra. E nada além disso...

Corremos atrás dos Cornélios, enquanto fugimos das Madalenas.

E os perdidos?

Os perdidos estão aí, profundamente confiantes em seu potencial humano inesgotável.

Claro que não me refiro aos bêbados ou drogados – estes estão mais próximos de reconhecerem seus verdadeiros limites – mas aos perdidos que a sociedade toma por exemplares, confiantes na eternidade da sua beleza física, na segurança da sua fortuna, ou na sabedoria de sua formação intelectual.

Da mesma forma que encontrarmos os bêbados de manhã, dormindo na calçada (porque estão tranquilos – entendem perfeitamente que, quando e se quiserem, saem do vício que os derruba na rua e voltam à vida sadia), vemos os não-perdidos embriagados no saber e nas conquistas espetaculares da humanidade presente subindo nos púlpitos, escrevendo livros ou enviando mensagens edificantes em seus blogues “livres” da alienação religiosa.

Todos dormem indefinidamente.

Além do mais, se cutucarmos esses bêbados, soltam alguns palavrões (geralmente por e-mail) e reclamam de por quê um “alienado” qualquer vem interromper seu sono. Ou até (os mais enfiados no vício) pedem dinheiro para permanecerem bêbados.

Sim, quem coloca sua fé no potencial humano caminha irremediavelmente para um fim que não é nada agradável. Diante de Deus, o mais culto e bem sucedido dos homens é como um tolo, que não sabe para onde vai (Prov 10.21).

Mas, se não fosse por Cristo, todos seríamos os perdidos.

Na parábola do Filho Pródigo (Luc 15. 11-32), o pai festeja a volta do filho que se perdera e gastara toda a fortuna da família. Não importa o prejuízo que causou, a vergonha na família ou mesmo a sensação de injustiça com outros irmãos. Há muita alegria quando aquele que se havia perdido reencontra o caminho com Deus.

Há parábolas de Jesus que estão se repetindo hoje em dia, e isso vem fortalecer a nossa certeza de que Deus está oferecendo uma nova chance a todos aqueles que, achando-se capazes de tudo, caíram em vícios mais fortes do que eles – bem como aos outros, que acham que não tem vício nenhum.

A propósito, o que aconteceu com Clay?

Quando Clay perguntou a si mesmo que força é essa que era maior que ele, foi buscar amparo na presença do pai que, apesar de filosoficamente materialista, sempre foi um homem íntegro e dedicado à família. Trazia as marcas físicas da tortura política e seus filhos jamais o tinham visto bêbado. Só que agora, “curado” do ateísmo, o estava esperando com a uma Bíblia na mão.

Luiz Carlos Clay ainda brigou com Deus mais algum tempo. Mas quando Deus tem um propósito na vida de alguém, os anos se passam até que o chamado vem quando a resposta está pronta para ser “sim”.

Deus restaurou a minha vida. Quer saber o que aconteceu comigo? Eu nunca mais bebi!

Se a fé é um vício, como pode vencer outro vício?

Vence, porque dos becos da cidade ou dos presídios, as mãos podem voltar sujas, mas as almas voltam limpas. Os perdidos que resgatamos são apenas pessoas que acabarem de experimentar o amargo da existência e por isso já conhecem o que teremos ainda duras provas para poder conhecer, que é o ponto em que nossa força de vontade individual bate em um absurdo incontrolável e nos afunda em contradições.

Para todos, é apenas uma questão de tempo.

Mas algo muito mais forte nos espera, quando nós mesmos nos reconhecermos como perdidos e sentirmos o peso da humilhação de nossos próprios fracassos e falta de sabedoria. Para sermos despertados desse sono, basta que alguém nos bata à porta.

“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrarei; batei, e abrir-se-vos-á” (Mat 7.7)