quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Maioria dos cristãos britânicos percebe marginalização

Pesquisa conduzida pela ComRes (para a Premier Christian Media) avalia que 81% dos que frequentam a igreja na Grã-Bretanha percebem que a marginalização dos cristãos é cada vez maior na mídia e na imprensa. A pesquisa também indicou que 77% percebem que essa marginalização ocorre na esfera pública, e 2/3 acham que existe também no mercado de trabalho. Essa percepção é maior em mulheres do que em homens.

A avaliação desse sentimento ocorre após incidentes que mostraram o aumento de ações anticristãs na Grã-Bretanha, ao mesmo tempo em que se desenvolve uma cara e pesada campanha difamatória movida por entidades como a British Humanist Association[i] e a National Secular Society.

Em janeiro de 2009, um conselho local cortou a verba de um asilo mantido por cristãos evangélicos porque sua direção recusou-se a responder sobre suas opiniões a respeito da homossexualidade.

Em fevereiro de 2009, foi divulgado publicamente que uma enfermeira cristã foi suspensa do hospital onde trabalha por ter se oferecido para rezar pela recuperação de um paciente.

Também em fevereiro de 2009, uma recepcionista escolar foi punida pela escola por ter enviado um e-mail aos amigos de sua igreja, pedindo orações por sua filha.

Em maio de 2009, o ministério da Igualdade anunciou que determinaria que as igrejas cristãs vão ser obrigadas a contratar homossexuais como instrutores para a juventude.

Em junho de 2009, uma cristã de 67 anos que reclamou contra a realização do evento ‘Gay Pride Parade’ em sua cidade, foi acusada pelo conselho de de ‘crime de ódio’ e interrogada pela polícia.[ii]

Em julho de 2009, um pregador que recitava a Bíblia em público foi impedido pela polícia local sob a acusação de ‘comentários homofóbicos e racistas’.

Na British Airways, uma comissária teve que acionar a Justiça porque seus empregadores exigem que ela esconda uma cruz que usa no pescoço.

Em julho de 2010, uma tutora legal que cuidada de uma adolescente muçulmana ameaçada pela família foi afastada por ter permitido que a menina (de 16 anos) se convertesse ao cristianismo.[iii]

Em novembro de 2010, uma enfermeira foi suspensa de seu trabalho por ter presenteado um colega com um livreto contrário ao aborto.

Em janeiro de 2011, os donos de uma hospedagem em Cornwall foram multados em 3.600 euros por restringirem os quartos apenas a casais heterossexuais.

Esse dado revela um aumento dessa preocupação, em relação a uma pesquisa similar feita no ano anterior pela mesma ComRes, que indicou que 2/3 dos cristãos percebem uma discriminação negativa maior do que qualquer outro grupo religioso no país – na ocasião, 44% dos entrevistados afirmou já terem sido ridicularizados por vizinhos, amigos ou colegas pelo fato de serem cristãos.



[i] a BHA recebeu 35 mil euros do governo trabalhista para fornecer ‘orientações’ para o ministério da Igualdade.

[ii] a acusação, nesse caso, foi julgada ‘desproporcional’ até pelo mesmo pelo líder ativista homossexual Ben Summerskill, e condenada também por comentaristas da mídia e por políticos.

[iii] sistematicamente, os conselhos locais tem excluído casais cristãos da fila de possíveis pais adotivos por causa da oposição por motivo de crença a uma escolha homossexual das crianças adotadas.

Por quê?

A imagem abaixo é de uma bandeira coberta com sangue, como resultado do ataque com bomba à igreja copta Qidissian, no Egito.

No ataque contra uma missa cristã de Ano Novo em Alexandria, em 1 de janeiro, resultou em 21 mortos e 79 feridos. Um ataque semelhante, no Iraque, durante a missa do Natal, teve saldo de 46 mortes.


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

De boatos e manifestos

Ainda sobre as eleições de 2010... pesam comentários, de um lado ou de outro, sobre como se deve dar a interferência das igrejas (ou ao menos dos crentes, pensando agir no interesse da religião) na esfera política.
Vejo que muitas ações que deviam ser condenadas foram aceitas como “parte do jogo” (como a multiplicação de boatos inverídicos), e outras que se incluem no dever de ação da igreja junto à sociedade foram vistas como uma interferência absolutamente indesejável, uma “americanização da política” (segundo a opinião de Bresser Pereira).
Tentar obstruir o envolvimento da igreja cristã em temas da sociedade alertando para o caráter laico do estado é puro farisaísmo. Cada cidadão e cada liderança tem o pleno direito de eleger um tema ou mais como essenciais para a tomada de decisão política, conforme a sua visão particular de mundo, que de modo algum tem que se ajustar a um estreitamento secular que “censura” determinados temas e limita a compreensão da realidade muito aquém do seu todo.
A mim, por exemplo, não me interessa a agenda dos partidos sobre a previdência social ou a privatização (até porque os políticos eleitos já se cansaram de prometer determinadas coisas e cumprir um programa totalmente diferente). Eu decido quais temas são importantes para as minhas decisões e vejo como perda de tempo comparar candidatos com posturas tão iguais.
Se a diferença está em questões morais (que inevitavelmente afetam a religião) é aí que podemos fazer escolhas.
O aborto
Dilma é abortista – deixou isso bem claro em 2007.
Não adianta reunir uma claque de cantores e pastores para dizer que mudou de compromisso quando seu próprio partido se recusa em abrir mão dessa posição, exigida pela estratégia feminista que se vincula ao partido. As duas primeiras versões do programa de Dilma previam a descriminalização do aborto. Na terceira, já não consta.
É claro que esse não deve ser o único critério para a escolha de uma candidata. Por mais que a esquerda religiosa procure obscurecer o espectro das escolhas e alegar falta de legitimidade da igreja cristã para falar desse tema, há elementos que não devem ser ocultados. Se os sindicatos e associações de classe podem fazer suas escolhas políticas, se movimentos “cristãos” de natureza obscura podem fazer suas escolhas políticas... por que as igrejas não?
Nas eleições dos últimos 20 anos, a esquerda religiosa sempre correu para defender nas igrejas o apoio a um determinado candidato, mas agora acha muito inconveniente que outros façam o mesmo.
Fez e continua fazendo
Pior ainda que os boatos mais absurdos (como o de que Michel Temer é um satanista), foi um “Manifesto dos Cristãos pela eleição de Dilma” que circulou com subscrições de 600 “líderes” religiosos (na realidade, quase todos militantes do PT) para obstruir manifestações “autoritárias e mentirosas” contra sua candidata.
O manifesto é um primor de submissão. Ele vez de tocar diretamente nas questões morais envolvidas na disputa eleitoral, prefere desviar para termos vagos, genéricos, que sugerem que o projeto do governo, mesmo pretendendo aprovar o aborto, está defendendo o direito à vida. O manifesto é tão acrítico que até a política externa – definida como “feliz”, mesmo com seu apoio a ditaduras homicidas e sua indiferença aos direitos humanos – é defendida.
Um manifesto submisso, descuidado, apressado e tão legítimo que conta até com as assinaturas uma “Paula Tejando” e um “Oscar A’lho” (confiram os números 535 e 536), ministros de uma improvável “Igreja do Amor Humano”.
(Ah, esqueceram de incluir no manifestos eleitores muito mais “decisivos”, como Edir Macedo, Samuel Ferreira ou Marcos Feliciano...)
Teólogos, pastores e padres podem errar. Aliás, costumam errar. Mas estão errando muito e errando demais. Como cegos conduzindo outros cegos, são vozes que vem há décadas tentando calar o povo de Deus. É com essa seriedade que tratam das coisas de Deus?

A casa dos horrores do aborto


Um relatório judicial de quase 300 páginas descreveu a clínica Gosnell, em Philadelphia, como um ambiente sujo e fétido, cujas condições de barbárie foram sistematicamente ignoradas pelas autoridades do estado da Pennsylvannia por mais de três décadas.
Na clínica, em que o rico Dr. Kermit Gosnell atendia a mulheres pobres desde 1979, geralmente imigrantes ou de minorias raciais, foram praticados milhares de abortos, muitas vezes em procedimentos tardios, após 20 semanas de gestação, quando os riscos são maiores – a lei estadual autoriza o aborto até 24 semanas, mas poucos médicos se arriscam a tanto. Um aborto (comum) custava cerca de 325 dólares, mas abortos “tardios” (até 30 semanas, além da lei) chegavam a 3 mil dólares. A clínica faturava de 10 a 15 mil dólares por dia.
Kermit Gosnell, de 69 anos, é um médico de família (sem especialização em obstetrícia), foi preso sob a acusação de 7 homicídios de bebês vivos (que após serem retirados foram retalhados com uma tesoura) e também de uma mulher que sofreu uma overdose de analgésicos enquanto aguarda pelo aborto. Além das condições precárias, a clínica não dispunha de enfermeiros treinados para o trabalho, e por isso quatro funcionários e a esposa do médico também foram indiciados.
Na técnica utilizada por Gosnell, o trabalho de parto era induzido nas pacientes no sexto ou sétimo mês de gestação. Então, o feto era retirado vivo do útero e depois decapitado, o que classifica o método como “aborto por nascimento parcial” (em que o bebê é retirado pelo corpo e então decapitado), uma modalidade proibida nos Estados Unidos desde 2000.
Apesar dos 46 processos movidos contra o médico, a inspeção regular da clínica foi suspensa em 1993, quando procuradores pró-aborto mudaram a política do estado.
No início de 2010, a polícia foi á clínica verificar uma denúncia sobre drogas e acabou encontrando sacos e garrafas com fetos abortados, além de um jarro de pés cortados sem nenhuma finalidade médica. O local cheirava a urina de gato, os móveis tinham manchas de sangue e animais circulavam livremente pela casa. Porém, pacientes brancas eram atendidas em uma ala reservada.
Autêntico cenário para um filme de terror.

Moça bem educada

A nova miss America, Teresa Scanlan, 17 anos, representante do estado de Nebraska e eleita Miss America, tem uma particularidade (além de ter sido a mais nova já eleita pelo concurso) que chamou um pouco a atenção das pessoas: ela é uma homeschooler, isto é, teve a maior parte dos seus estudos foi feita em casa!
Oriunda de uma família de refugiados croatas que fugiram da guerra no início dos anos 90, Teresa Scanlan é muito culta, demonstra estar atualizada com as notícias mundiais e venceu o concurso em seu estado apresentando um trabalho sobre transtornos alimentares. O fato de não ter frequentado a escola não a impediu de ser aprovada nos exames requeridos para sua modalidade de educação antes da idade normal, estudando além do exigido.
Em seu blog, Teresa expressa a sua fé em Deus: “Eu sei que isso é exatamente o que Deus quer que eu seja, e Ele tem um plano para cada dia da minha vida, não apenas esse ano, mas a cada ano. Essa foi a minha oração, então, e tem sido a minha oração há seis meses e será sempre a minha oração. Nas próximas semanas no Miss America, e continuará sendo minha oração para o resto da minha vida. Se eu ganhar o título de Miss America, eu sei que é Sua vontade. Se eu não ganhar, e continuar nos próximos seis meses como Miss Nebraska, eu sei que é Sua vontade. Como é incrivelmente confortador saber que a minha vista está em Suas mãos!”
Com a premiação, Teresa vai cursar Direito na Patrick Henry College, onde se matriculam muitos homeschoolers. Ela não esconde suas pretensões de chegar até a Suprema Corte dos Estados Unidos e, quem sabe, a presidência do país.
Será uma nova Sarah Palin?
Enquanto isso, no Brasil...
O homeschooling é uma prática proibida no Brasil. Em 2008, um casal da cidade de Timóteo (MG) foi sentenciado por “abandono intelectual de menor” por não ter matriculado seus dois filhos adolescentes no sistema oficial de ensino, optando pelo ensino domiciliar.
Os pais foram processados civil e criminalmente a uma multa de 2 a 3 mil reais, e ainda podem perder a guarda dos filhos (Folha de S. Paulo, caderno cotidiano, 2.jun.2008). Curiosamente, o grave “delito” só foi percebido pela autoridade pública quando os dois filhos – mesmo sem jamais terem frequentado a escola – foram aprovados em 7º e 13º lugar na Faculdade de Direito de Ipatinga.
Os dois filhos, de 14 e 15 anos, não pretendiam ingressar na faculdade (nem estavam na idade para isso). O vestibular foi apenas um teste de conhecimento, onde os garotos superaram centenas de candidatos frequentes à escola.
A Justiça determinou então a aplicação de um exame para o ensino fundamental elaborado por 16 professores da rede estadual para verificar se o ensino ministrado pelos pais (que se organiza segundo o sistema da escola latina, que incluj gramática, aritmética, geometria, ética, dialética e retórica, mais astronomia, música e duas línguas estrangeiras – o inglês e o hebraico – somando 6 horas diárias de estudo em casa) tinha sido compatível com o currículo oficial.
Mas o teste era apenas uma “ilusão”. Os garotos receberam o currículo com apenas uma semana de antecedência e as questões do teste foram retiradas do ENEM e de vestibulares de outras universidades (apesar da Justiça ter determinado uma avaliação apenas do conhecimento compatível com o ensino fundamental, e não o médio). Mesmo assim, os garotos foram aprovados, e o processo cível continuou em andamento, com todas as penalidades possíveis.
Duplo padrão
Há milhares de famílias cujos filhos (por diversas razões) não frequentam a escola. Segundo o Ministério da Educação, apenas entre os beneficiários do Bolsa Família durante o primeiro bimestre de 2010, ao todo 40 mil crianças deixaram de ter a frequência mínima (85%) por motivo de desinteresse ou abandono escolar – ou seja, crianças que tiveram um percentual de presença próximo de zero – o que corresponde a 18% dos benefícios suspensos. Se a soma incluir os não-beneficiários, o total de crianças realmente abandonadas em seus estudos é ainda maior.
Não há punições para essas famílias. Eventualmente, os pais são chamados formalmente diante de um juiz para se comprometer com a presença diária na escola, mas a situação de desinteresse pela formação vai sendo “empurrado pela barriga” até a criança chegar à idade em que a família não é mais responsável por ela – ou seja, trajetória de rua, tráfico, Fundação Casa ou, talvez, até a morte. São milhares de pais ou mães cujos filhos não deixaram a escola para buscar um ensino melhor em casa, e sim para não ter ensino algum. Isso sim que é abandono!
Caso voltem a “estudar”, terão um aproveitamento quase nulo na escola (devido à falta de continuidade) e acabarão “subindo” nas séries correspondentes através da reclassificação por idade até chegarem ao fim do ensino médio, sem aprenderem nada. Há um tratamento inteiramente distinto por parte da autoridade pública e do sistema educacional, que hoje vive um colapso do ambiente escolar (apontado como a causa principal da adesão ao ensino domiciliar nos Estados Unidos... imagina no Brasil!).
O casal de Minas Gerais poderia muito bem ter seguido as facilidades que o estado proporciona a famílias desajustadas e sem o menor comprometimento com os filhos. Mas seguiram a justiça, e por isso estão sendo reprimidos.
Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão.”
1Timóteo 6.11

A Bíblia em Naïf

A arte naïf – antigamente chamada de arte “ingênua” ou primitivista – é um gênero caracterizado por obras simples, sem muita preocupação com a perspectiva, mas que geralmente resulta em obras com grande colorido e vivacidade.

As obras a seguir fazem parte de uma exposição do pintor Aloísio Dias da Silva, retratando passagens inspiradas na Bíblia.

Expulsão de Adão e Eva do Paraíso

Abel e Caim

Destruição de Sodoma e Gomorra

Abraão e Isaque

José é vendido por seus irmãos

Moisés

Balaque e Balaão

As muralhas de Jericó

Davi e Golias

Sabedoria de Salomão

A rainha de Sabá em visita ao rei Salomão

A fuga para o Egito

Jesus orando e os discípulos dormindo

Ressurreição de Lázaro

A ressurreição de Cristo

A urgência do "cercadinho"

Me chamou atenção uma detalhe na matéria “A mexicana Homex tropeça no Brasil” (Estado de S. Paulo, caderno Negócios, 27.set.2010), que trata de algumas dificuldades de uma gigante do setor de construção de casas populares (capaz de erguer uma casa em 7 dias!) para se adaptar ao gosto e à forma de trabalho no Brasil.

“O projeto original dos imóveis teve que ser adaptado aos padrões brasileiros (...) Muitos já iniciaram seus puxadinhos no fundo de casa e ergueram muros para se sentirem mais seguros

Ou seja, os moradores das casas recém-construídas, que tinham apenas o básico, priorizaram cercar a casa com muros baixos – imagino que não tenham tido tempo para erguer muros altos – sobre outras melhorias necessárias para suas residências, como um banheiro melhor ou telhados em vez da laje impermeabilizada.

A providência dos moradores de São José dos Campos – e imagino que em Campo Grande e Marília não será diferente - de erguerem pequenos “muros para se sentirem mais seguros” é puramente simbólica.

Nós sabemos que a garantia de segurança não é suficiente com muros pequenos, que mal protegem o terreno contra a entrada de cachorros. Hoje em dia apenas com verdadeiras muralhas, revestidas com cerca eletrônica e, se possível, com sistema de alarme e/ou câmeras, é que os moradores podem se sentir mais seguros. Contudo, se observamos em residências mais antigas (ou mesmo em cidades de menor porte, onde o problema de segurança é menor) a presença de pequenos muros em volta das casas é quase uma regra, apesar da efetiva pouca proteção que esses muros oferecem, em contraste com a residência típica dos Estados Unidos, que é aberta, com um gramado que vai até o limite da calçada.

Então, por que o brasileiro se apressa em levantar um muro para o seu terreno?

A resposta não pode ser encontrada na herança histórica das paliçadas dos colonizadores, nem no estilo de habitação das aldeias indígenas. O muro tem mais a ver com a concepção do sociólogo Roberto DaMatta sobre o limite entre “casa” e “rua”.

Ao contrário da moralidade explícita do norte-americano (sob a herança do puritanismo inglês), que não faz limite entre o acontece e deve acontecer dentro da família ou fora dela, a moralidade brasileira levanta uma distinção intransponível entre os dois âmbitos. Fora de casa, ou seja, na “rua”, o indivíduo está sujeito à moral pública, e deve se portar com a indumentária moral que a sociedade espera. Porém, em “casa”, ele é responsável pela sua própria moral. O muro representa simbolicamente a fronteira entre esses dois ambientes.

Vemos uma aplicação prática dessa distinção damattiana no julgamento popular – porque legalmente, nunca houve julgamento algum – do senador Renan Calheiros, bem distinto do que aconteceu, por exemplo, com Bill Clinton nas mãos do procurador Ken Starr.

O juízo popular contra o senador sempre foi contra a atuação do senador junto aos lobbys empresariais e, espetacularmente, à venda de suas vacas “superfaturadas”.

Mas nunca houve juízo moral sobre o fato de ter tido uma relação extraconjugal e uma filha com a jornalista Mônica Veloso. As vacas estão no ambiente pública, a “rua” – sujeitas a um julgamento público que acabou nunca acontecendo – Renan foi reeleito senador para mais um mandato de 8 anos na última eleição.

Já a relação com a jornalista – o que, ao que parece, sequer abalou o casamento do senador – pertence à “casa”, e sobre ele não cabe nenhum juízo fora de seu reinado familiar.


domingo, 19 de setembro de 2010

Entrevista: “Temos Sakinehs cristãs pelo mundo”

Reproduzimos a entrevista com a jornalista Barbara Baker, da agência Compass Direct, a André Lobato, da Folha de S. Paulo, edição de 11 de setembro de 2010.

Sakineh Ashtiani é uma mulher de 42 anos condenada a morte no Irã, o que tem provocado protestos de vários outros países, inclusive do Brasil, para que a pena não seja aplicada. Para a jornalista norte-americana, casos similares têm acontecido em todo o mundo islâmico envolvendo perseguições a minorias cristãs, tanto de forma oficial (como ocorre na Arábia Saudita) como não oficial (na Turquia), e que dificilmente atraem a atenção dos governos do resto do mundo.


FOLHA- Como alguém em uma sociedade muçulmana decide se tornar cristão?

BARBARA BAKER- Bom, primeiro por que é permitido. Acho que a Turquia é o único país de maioria muçulmana em que você pode mudar de religião – que fica impressa na carteira de identidade. E como é uma sociedade ocidentalizada, muitos já viveram na Europa, aprendem sobre o cristianismo e comparam. Uma família que se torna cristã reza junto, no islã homens e mulheres são separados. Para muitas partes da sociedade não é um problema, uma garota pode virar para os pais e dizer: 'virei cristã'. Mas em vilarejos seria um grande perigo.

FOLHA- Você acha que um padre é mais aberto ao questionamento?

BAKER -Do que um mulema ou imã, sim. Tem muito mais ênfase em ler a Bíblia na cristandade do que na Turquia. O Alcorão é em árabe e as traduções não são as palavras inspiradoras de Allah. Meu locador me disse: “Nunca vou aprender árabe, então serei sempre um muçulmano de segunda classe”. Isso é uma diferença, a Bíblia é traduzida e existe um convite conjunto a todos os que têm fé a descobrirem juntos o que significa.

FOLHA- Que tipo de coisas acontecem ainda hoje na Turquia?

BAKER- Lembro que logo que cheguei houve um caso de cristãos que foram presos e apanharam muito. Trabalhava numa agência de direitos humanos e meu editor disse que se eu tivesse documentos ele publicaria. Lembro de receber ligações durante nosso fechamento com vários cristãos dizendo “publique, queremos aparecer na história, é nosso direito constitucional”. E os quatro casos ganharam facilmente na Justiça. Depois disso, muitos me ligavam quando eram presos. Uma vez no meu aniversario recebi uma festa com vários dos cristãos que eu havia visitado na prisão. Um casal de amigos foi preso na festa de casamento. E ficaram presos por uma semana apanhando.

FOLHA - Sua experiência é mais na Turquia, mas você conhece a situação em outros lugares?

BAKER- Eu viajei repetidas vezes pelo Oriente Médio, África, Sudão, Ásia Central.

FOLHA- Você poderia nos levar para um passeio nessa região?

BAKER- Nos últimos 20 anos tenho viajado a cada quatro, seis semanas.
Em muitos desses lugares, se os vizinhos querem seduzir ou sequestrar as filhas de um cristão, não há muito o que ele possa fazer. As leis estão todas do lado da lei islâmica.

FOLHA- O Pew Forum tem um mapa interessante que mostra a intolerância religiosa das leis e das sociedades em diferentes países. Como são as coisas na Índia e China?

BAKER - Na Índia acho que o principal problema são os nacionalistas hindus. Não apareciam muito nas nossas notícias, mas de uns sete anos para cá aparecem tantas vezes que algumas pessoas pensavam que éramos uma agência indiana. Na China eles estão acostumados com a perseguição. Era contra o Estado acreditar em Deus. Era normal a prisão quase “qualificar” alguém a ser padre. Mas em países assim, como Irã e Arábia Saudita, há versões do Novo Testamento na internet.

FOLHA- Mas você pode construir uma igreja na China.

BAKER - Ano passado construíram uma megaigreja. Mas ficou com tantos serviços todo domingo que, sem aviso, as autoridades vieram e demoliram tudo.
Os perseguidores podem ser o Estado, um grupo político ou até mesmo outros cristãos.

FOLHA- E entre cristãos?

BAKER- No Líbano tivemos um bispo católico que, tão dentro de suas memórias, resolveu derrubar uma igreja protestante. No Sudão, por exemplo, os heróis são os padres católicos, que resistiram contra a pressão do governo. E Ortodoxos no Egito, por exemplo.

FOLHA - Então, em vários países, a radicalização contra cristãos aumentou?

BAKER- Sim. Veja na Turquia, são ultranacionalistas islâmicos. Na Turquia vem dos nacionalistas. Nos últimos cinco anos, tivemos seis assassinatos realmente chocantes. Um padre, um jornalista armênio, dois turcos que convertidos e um alemão. Isso chocou a Turquia, por que os torturaram por várias horas e cortaram suas gargantas. E ficaram particularmente furiosos com os que haviam se convertido. E em junho deste ano o bispo líder católico foi morto por um sujeito que o esfaqueou até a morte gritando Allah. Os turcos não sabem o que fazer com isso. Esses três tiveram um dos maiores enterros de cristãos que já aconteceu no Oriente Médio. Quase 250 mil turcos muçulmanos andaram do lugar onde eles foram mortos até a catedral armena. E sua viúva disse as palavras de Cristo, “Pai, perdoai-vos por que eles não sabem o que fazem”, e disse que perdoava o assassino. As viúvas o perdoaram. Um jornalista turco disse: “Isso é mais forte do que mil missionários trabalhando na Turquia por mil anos”. Por que é uma cultura da vingança, e eles não conseguem entender.

FOLHA - Sobre a cultura da vingança, você acha que é algo do momento?

BAKER - Acho que fanáticos muçulmanos estão usando a religião e eles podem encontrar algumas referências úteis no livro. Eu não acho que meus vizinhos turcos são do tipo que querem me matar. Mas não sei o que eles pensam. Eles tentaram que eu virasse uma muçulmana porque é a última religião. O islã e o cristianismo são as duas únicas grandes religiões que querem converter as pessoas. O que dá muita notícia na Turquia é quando um cristão vira muçulmano. Como ocorreu no velório de um dos ativistas da flotilha de Gaza.

FOLHA- Seria como um choque entre duas religiões que querem converter a todos. Como cristã você quer evangelizar?

BAKER- Meu sentido é o de perdão, e essa é a maior relação com Deus que eu posso ter. Eu sei que meus amigos turcos não acreditam que isso é possível. Por que é impossível ter certeza, no islã, de que ao cruzar aquela ponte você vai cair no inferno ou não. Só Deus pode saber. Eles acham que é arrogância dos cristãos pensarem que podem realmente saber. Mas eles não podem negar que eu experimento a paz. Eu os respeito. Talvez eles achem que eu sou cega por ter essa falsa certeza. Mas eu realmente acho que não, por que eles sabem que o nos guia no cristianismo não é a culpa, mas a resposta ao amor. Por que Deus sabia da minha inabilidade de merecer meu caminho no céu e se dispôs a tomar a pena em meu lugar.

FOLHA - Sobre esse choque, às vezes dá a impressão de que as pessoas estão se sentindo tão pressionadas pelo Ocidente que pedem para uma religião forte o suficiente que lhes de autonomia, proteção.

BAKER- Na Turquia o Estado é secular. Como posso acreditar em democracia e direitos humanos e em um Estado secular que não impõe religião a ninguém. Se sou um bom muçulmano, quero que eles se juntem.

FOLHA- Há casos de intolerância no Brasil em que cristãos acusam religiões afro-brasileiras de serem o demônio. Deve ser difícil acreditar em uma verdade e conviver com quem é o demônio. Será que isso não ocorre com o islã e o cristianismo: os modelos mentais não podem conviver no mesmo território?

BAKER- Não acho que isso seja totalmente verdade. Não precisa ser. Tem de haver amor e respeito por outro ser humano. Que é o que aconteceu com os homens que foram mortos na Turquia. Eles eram gentis, não gritavam pelas ruas. Um deles tinha memorizado o Alcorão. Ele tinha muito respeito. Mas encontrou em Jesus amor e respeito. Não acho que deva haver esse choque, do tipo violento. Eu me lembro que a Tchetchênia foi o primeiro lugar em que escrevi sobre onde as pessoas estavam sendo decapitadas por causa de religião. E acho que isso possa ter acontecido há séculos atrás, eu não sei, por pessoas que se chamavam de cristãs e que queriam estender a religião. Mas não poderia ter acontecido por alguém que realmente entendeu as palavras de Jesus, por que é um convite, e não uma obrigação. Acho que há muita falta de compreensão.
Vemos em Nova York um projeto de construção de uma mesquita no Ground Zero . Há pessoas que vão as ruas e dizem não, vocês são terroristas. Isso é um extremo. Hoje vivo mais tempo no Oriente Médio do que nos EUA. E quando saí dos EUA não havia nenhuma mesquita em meu Estado, Oregon. O que eu vejo que é um pouco de cegueira do mundo islâmico. Não há nenhum compromisso com reciprocidade. A Arábia Saudita vai algum dia permitir que uma igreja seja construída lá? Não. Isso seria uma violação da terra santa do islã. Mas eles têm mesquitas por todo o Ocidente. E eles ativamente convertem, especialmente mulheres americanas, a se casarem com muçulmanos. E elas são mais religiosas que os muçulmanos comuns. E por que alguns são extremistas, ficam com o nome sujo. Eu vi, por exemplo, como os americanos ficaram furiosos com os iranianos depois da revolução e a crise dos reféns.

FOLHA- Mas qual é seu ponto em relação à mesquita?

BAKER- Entendo por que patriotas americanos estão chateados. Mas não acho o tema tão importante. E o que é, é a verdadeira liberdade religiosa, em todas as partes, em todos os lados. Há países construídos sobre liberdade religiosa. Como Brasil e EUA. Os que não o são, deveriam dar esse tipo de liberdade também?
Acho que próximo do direito à vida, é um dos mais importantes para o ser humano. Uma vez conversei com um juiz do Egito que achava que não fazia sentido obrigar alguém a ficar no islã. Mas tinham guardas o protegendo, por que a Irmandade Muçulmana não gostava do que ele dizia.

FOLHA- Então o Ocidente é muito tolerante com a intolerância religiosa?

BAKER- Eu não diria... Acho que são ingênuos. Há um tempo conversei muito com um líder paquistanês sobre o mundo muçulmano e seu objetivo de conquistar o mundo. Ele disse que estavam nessa direção. Havia alguns problemas na Argélia, por causa das guerras e matanças. E disse: “Isso não nos faz ficar bem mais ainda sim nós chegaremos ao poder na Argélia, Turquia, demorará mais tempo, teremos que ir devagar, mas chegaremos ao poder”. Me chocam as notícias que leio do meu próprio país. Dois evangélicos que largaram as drogas e estão compartilhando sua fé na praia. Um cara se sente irritado e dá um tiro na cabeça deles. Faz alguns meses. Se fosse no mundo muçulmano eles estariam derrubando igrejas. Mas nem teve cobertura alguma na mídia americana. Em Detroit, há pouco tempo, dois caras foram presos por tentarem evangelizar em uma festa da comunidade árabe. A polícia disse que estavam sendo inoportunos. Isso é América ou o quê? Ser politicamente correto é ir para o outro lado: temos que ser muito cuidadosos pois os muçulmanos podem ficar bravos. A decisão Suíça sobre os minaretes... Naquela mesma semana na Turquia um cara foi a uma igreja ortodoxa e ameaçou de morte o padre caso ele não derrubasse um sino que está lá há séculos.

FOLHA -O Ocidente é muito frágil em defender sua história como sociedade cristã?

BAKER- Não pode mais ser chamada de sociedade cristã. Tem raízes judaico-cristãs. Uma vez um padre muito sábio me disse que é impossível ter diálogo efetivo se você é inseguro em relação a suas próprias crenças. Na Turquia é muito interessante conversar com ulemas e imãs que realmente sabem o que o livro diz. Tão poucos sabem. A maneira como as religiões se relacionam muda ao longo da história. Judeus já foram melhor tratados entre muçulmanos do que entre cristãos. A liberdade religiosa é possível? É possível mas um pouco sobrenatural. É preciso ter o espírito do perdão. Conheci um homem que se converteu na prisão. Seu irmão ficou mais aborrecido dele ter se convertido do que ter sido parte da jihad. Você não estranharia a conversão ao islã de um cristão que frequenta a igreja todo domingo? Uma vez conheci uma americana que casou com um paquistanês e se converteu ao islã. Ela disse que ser católica não trouxe nada para ela. Aí me ocorreu de perguntar se ela era realmente lia a bíblia, se realmente conheceu Jesus. E ela admitiu que ia a igreja uma vez por ano. Então para mim existe o cristianismo folclórico como existe o islã folclórico, que tem muita superstição. O típico americano diria que é um cristão ou nada. Tem uma diferença entre quem frequenta a igreja e tem uma relação pessoal com Jesus.

FOLHA- A perseguição aos cristãos é diferente quando falamos de Estados ateus? Perseguem todas as religiões igualmente?

BAKER- Não complemente. Comunismo e marxismo se deram conta muito cedo de que a Igreja era uma ameaça por que eles colocariam Deus acima do Estado. Mas eles não perseguem todas as religiões igualmente.
Há um verso no Alcorão que diz que é válido mentir se isso serve ao propósito. Mas um cristão diria, eu enfrentarei as consequências de falar a verdade, nunca é honroso a Deus mentir. Então eu descobri que em algumas culturas islâmicas que eles não querem enfrentar os governos. Não vou dizer que é sempre o caso. Claro que há vários islâmicos aprisionados por terem ameaçado o governo.

FOLHA- Você é jornalista e tem uma bandeira. Você cobre sua própria tendência.

BAKER- Eu não ataco nenhuma religião. Quero ser o mais precisa possível. Mas sei que tenho uma tendência. Quando me dizem que são imparciais eu digo, isso é impossível. Eu tenho o foco nos cristãos, mas quando vejo, por exemplo, o caso dos armadis, que são muçulmanos perseguidos, também publico.
Lembro quando um evangélico ouviu do diretor da televisão em que trabalhava de que não poderia ser imparcial por sua religião, e ele respondeu: “E você, não votou na última eleição?” Sobre o caso Sakineh, teve muita crítica interna na Turquia, questionando por que o Brasil e não a Turquia, que está ao lado, tem que fazer isso. Embora muitos não gostem de que não haja mais pena de morte lá, por que o líder curdo está na prisão opinando nos assuntos curdos e muitos gostariam que ele já tivesse ido. Mas nunca concordariam com o apedrejamento.

FOLHA- Há 'sakinehs' cristãs ao redor do mundo?

BAKER - Temos um problema terrível de morte por honra no interior da Turquia. Seja os que matam as próprias filhas ou os que as forçam a cometer suicídio. Por que o simples ato de paquerar um menino na escola pode destruir a honra de uma família. Uma mulher que escreveu um livro sobre o assunto mostrou que muitas vezes as mortes não são baseadas em fatos. Não acho que com apedrejamento. Mas sei que na Somália isso está acontecendo. Somalis que viram cristãos são decapitados. O chefe de nosso escritório da África viu isso acontecer. Isso já aconteceu na Arábia Saudita.

FOLHA- Você acredita que Obama seja um muçulmano?

BAKER- Não acredito que ele seja um muçulmano, mas também não sei se ele é um cristão devoto. Não cabe a mim. Eu não fico surpresa que muitas pessoas pensem isso, por causa do pai dele e do nome Houssein. Muitos dos cristãos de direita dos EUA estão muito chateados por ele aparentemente agradar muçulmanos, como com a mesquita no Ground Zero. Mas também eu não concordava muito com o que o Bush dizia. E, apesar dele ter chamado o Islã de uma religião da paz, para o mundo muçulmano ele os atacou em nome dos cristãos.

FOLHA- Obama é amigo de mais do islã?

BAKER- Ele quer ser. Seu primeiro discurso foi em Istambul, para o mundo muçulmano. Ele quer retirar as conotações religiosas, o que é muito difícil pois as sociedades islâmicas são muito religiosas, em oposição a América, tentando ser mais secular. E mesmo que tenhamos uma comunidade religiosa conservadora muito forte, o modelo mental do governo é muito diferente. Encontrei pessoas de embaixadas americanas por todo o mundo e eles são muito antirreligiosos. Não vivem numa sociedade religiosa e não sabem como é. Esse paquistanês que disse que o islã vai dominar o mundo, será uma vitória para a lei islâmica? Eu não sei quantos muçulmanos querem viver sobre a sharia. Mas não vejo um grande fluxo de pessoas indo viver na Arábia Saudita por suas normas extremamente restritas e sua maneira de se vestir. Um amigo foi preso lá por alguns meses sob a acusação de converter algumas pessoas. Ele disse que havia de 75 a 10 mil cristãos lá, mas eles não vão contar a ninguém que são cristãos, por que podem ser executados. Conheço um paquistanês que se converteu e fugiu para a Coreia, foram até lá e o mataram. Mas há cristãos que entram na Justiça, por exemplo no Egito, para afirmar seu direito de mudar de religião.

FOLHA- Você acha que guerras como do Iraque e do Afeganistão deram poder aos intolerantes?

BAKER- Acho que era nossa de obrigação e direito como americanos dar uma resposta direta para essas pessoas que nos atacaram de uma maneira tão horrível. Mas o resultado foi muito custoso para os cristãos nessa parte do mundo. Por que as ações do Exército americano são vistas como um ataque dos cristãos. Ficou muito, muito difícil para os cristãos. Fico muito triste de ouvir que cristãos, que eu chamaria de fanáticos, planejam queimar o Alcorão. Alguns fazem isso em resposta a mesquita do Ground Zero. E muitos cristãos americanos estão contra isso e dizem: “Vocês percebem que imediatamente eles vão atacar igrejas e matar cristãos em vingança?”. É tão ridículo e atrasado. É um efeito boomerang. É uma falta de compreensão de princípios básicos da cristandade. Já expliquei a vários muçulmanos, “você tem ideia o quão é uma blasfêmia para dizer você dizer que Jesus Cristo era apenas um profeta”? Por que ou ele era mentiroso, louco ou era Deus. Eles dizem que Deus permitiu a cristandade existir para fazer a revelação final depois. Mas eles não se dão conta de a Bíblia e o Alcorão não concordam em muitas coisas. Para mim, é blasfêmia. E eu não vou queimar uma mesquita por causa disso.

FOLHA- Você acredita que a tolerância religiosa depende de aceitar blasfêmias, como que Jesus é só um profeta?

BAKER- Isso não atinge a minha fé. Eu entendo quem pensa assim, mas não vou ficar com raiva.

FOLHA- Mas não há partes na Bíblia ou no Alcorão que pede para você vingar seu Deus?

BAKER- Na Bíblia não. Por que como disse uma das viúvas na Turquia, é que “uma das maiores vinganças é ver aqueles que mataram meu marido virem a Jesus”. Eles vão ter três sentenças de vida consecutivas. E a viúva criando seus filhos sozinha disse que se sentia mal por eles. Ela pediu para visitá-los e as autoridades não deixaram. As crianças disseram na imprensa Turca: queremos levar uma Bíblia para eles, que poderão ir para o céu e dizer “desculpa papai”.

domingo, 25 de abril de 2010

O dia em que Deus brincou com Dawkins

Repare nas duas crianças sorridentes na imagem ao lado. São filhos de cristãos evangélicos, educados sob princípios bíblicos e possivelmente até frequentam a escola bíblica dominical.

No entanto, não podem ser chamadas de “crianças cristãs”. É porque seus rostos acabaram sendo utilizados como parte de uma intensa campanha publicitária dirigida pela Associação Humanista Britânica (BHA), aquela dos "ônibus ateus", com apoio do militante Richard Dawkins.

O objetivo da campanha, que tem como título “Por favor, não me rotule. Deixe-me crescer e escolher por mim mesmo”, é não apenas inibir o ensino da religião no ambiente familiar, mas considerar que cada criança tenha autonomia, a seu tempo, para escolher suas crenças, o que começaria por não “encaixá-las” (seja pelas escolas ou em estatísticas) na mesma crença de seus respectivos pais. Segundo Dawkins

Nenhuma pessoa descreveria honestamente uma criança pequena como ‘criança marxista’, ‘criança anarquista’ ou ‘criança pós-modernista’. Contudo, as crianças são comumente rotuladas com a religião de seus pais. Nós precisamos encorajar as pessoas a pensarem cuidadosamente antes de rotularem uma criança muito jovem para saber quais suas opiniões próprias e quais ensinos dos adultos as levaram a isso”

É muito justa a preocupação de Dawkins. A rotulação (labelling, que ele comparou à “lavagem cerebral”) não faz o menor sentido em crianças muito pequenas que ainda não chegaram ao estágio de fazer suas próprias escolhas. Nós não devemos rotular as pessoas – apenas Dawkins é que pode.

O esforço da BHA insere-se no que eles mesmos chamam de “desdoutrinação” da sociedade, que é uma tentativa de eliminar do sistema educacional público e da mídia os últimos resquícios de ensinamentos teístas, ou, ao menos, equipará-los aos contos de fadas. Pelo menos essa tem sido a preocupação dos seus “acampamentos de verão” para crianças... ateístas (!), o que revela que a preocupação de Dawkins com a rotulação religiosa comporta uma honorável exceção ao que ele ensina e a quem ele ensina.

Para ser menos hipócrita, talvez seja melhor para Dawkins utilizar com cuidado o termo “lavagem cerebral” e a BHA se preocupar mais com os efeitos de sua campanha sobre a educação familiar. Uso de drogas: deixar que escolham por si mesmas? Podem os pais, em nome da autonomia dos filhos, deixar que se comportem na mesa como quiserem, escolham (se quiserem) o horário de estudo, e aprendam sozinhos a noção do que é certo e o que é errado?

Obviamente, responderão que não, e que é apenas a escolha ou não-escolha da religião é que deve ser postergada para a idade adulta. Acontece, porém, que as crianças (assim como todas as pessoas) estão expostas permanentemente a ensinos e opiniões que procedem ou induzem a crenças relacionadas à religião – ou à sua contrapartida humanista. Assim, por exemplo, uma história real ou fictícia apresentada pela mídia incentivando a sexualidade precoce, a curiosidade por extraterrestres ou o consumo sem limites acaba influenciando as pessoas de qualquer idade em temas que tem ligação com a religião. No entanto, a campanha do BHA não pensa em coibir essa interferência, e sim apenas em que retirar os pais desses temas aos quais estão expostos diariamente.

Por isso, é insensato admitir que a mídia, a escola ou os acampamentos de Dawkins tenham o direito de influenciar, enquanto as famílias não. Desse jeito, terão que proibir que músicas religiosas sejam tocadas dentro das casas, que crianças sejam levadas à escola dominical, ou que os pais façam oração na frente dos filhos? São implicações básicas e inevitáveis que a campanha da BHA parece não ter sequer se preocupado.

Além do mais, quando um pai simplesmente menciona que acredita em Deus (ou que não é acredita), sem qualquer imposição ou doutrinação, já é uma forma de transferir essa convicção ao filho, até mesmo inconscientemente.

Em termos práticos, a campanha do BHA é absolutamente irreal.

“Educa a criança no caminho em que deve andar”

Muitos ateístas afirmam que a maioria dos que são religiosos se tornaram assim porque tiveram uma educação religiosa na infância e que, sem essa, muito mais pessoas teriam se tornado ateístas.

Essa afirmação pode ser verdade, mas não é atual. Há já um bom tempo a sociedade é (ao menos nos grandes centros) permissiva quanto à liberdade de escolha das pessoas, mesmo contrariando as tradições familiares. É muito comum que adolescentes formem suas opiniões ateístas por volta dos 13-14 anos e anos depois retornem à crença de seus pais, porém com mais convicção.

O testemunho vale mais do que muitas pregações. De nada adianta um pai intitular-se cristão e querer que o filho também seja cristão se ter uma vida pessoal diferente da que um cristão deve demonstrar. Nesse caso, todo o ensinamento pode ter justamente o efeito contrário. Ninguém conhece melhor uma pessoa do que os membros da sua própria família, e essa sim que deve ser a preocupação de todo o pai ou mãe, antes ainda de ensinar os primeiros conceitos sobre a existência de Deus e da salvação em Cristo.

Uma das passagens mais bonitas do Novo Testamento é aquela em que Paulo e Silas estavam presos em Filipos e, na mesma noite (enquanto cantavam hinos), ocorreu um terremoto que destruiu as trancas da prisão e todos os presos acabaram fugindo. No entanto, o carcereiro tinha recebido ordens para que cuidasse dos dois e pretendeu se matar por temer a punição certa de seus superiores. Então Paulo e Silas apareceram para mostrar que não fugiram, porque isso iria levar à sua punição pelos magistrados. Naquele momento, o carcereiro pediu o que seria necessário para se salvar.

Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16.31). Então ele os levou para sua mesa, e “na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa” (At 16.34). Com alegria, ele e todos os seus filhos foram batizados.

Na campanha da BHA, as fotos das crianças foram selecionadas em um banco de imagens mantido por uma agência. E a escolha recaiu sobre Charlotte (8 anos) e Ollie (7 anos), filhos de Brad Mason, componente de um dos mais populares conjuntos musicais evangélicos da Grã-Bretanha, que até ficou bastante envaidecido com a campanha: “É engraçado, porque obviamente eles estavam procurando imagens de crianças que pareciam felizes e livres. E aconteceu de escolherem crianças que são cristãs. É irônico.”

Leia a notícia

“Crianças utilizadas no anúncio ateísta de Richard Dawkins são evangélicas” em http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/faith/article6925781.ece